15/04/2016 - 14:31
VALIDADE E LICEIDADE


“Homem, quem me constituiu juiz a mim ou repartidor entre vós?” (Lc 12, 14).

No âmbito eclesial a esfera canônica nem sempre responde ou corresponde à realidade e sua aplicação muitas vezes se torna um abismo ante o interessado ou seu contexto.

O Ocidente cristão foi engolido pelo Direito principalmente em suas matrizes romano-tomista, onde se impera mais a autoridade da instituição e não a inculturação da lei para a normativa de vida e dignidade.

Oferecem excomunhões com tanta facilidade e deturpam assim a essência e validade do ministério (diaconal, sacerdotal ou episcopal) do qual eles mesmos foram canais validando sua sacramentalidade. Mas o exercício do ministério só se tem validade quando o mesmo se limita a esfera romana, sendo assim o Espírito que agiu autenticamente por longos anos agora não age mais, pois a comunhão só é concebida, compreendida e aceita se não sair além destes muros.

No ímpeto da imprudência aqueles que já não se encontram sob a comunhão romana tratando-se de ministros validamente ordenados são jogados como lenços descartáveis e assim se questiona a validade sacramental administrada pelos mesmos, mas ecumenicamente se beijam entre Roma, Cantuária (Anglicanismo) e Constantinopla (Ortodoxia) mantendo assim a cartilha dos laços fraternos e concelebrações entre si.

Os clérigos ou fiéis que nos visitam ou oram conosco são ameaçados de excomunhão, pois só os ligados a Roma possuem a plenitude da verdade e da sucessão apostólica. Uma teologia e eclesiologia sufocadas pelo Direito romano e suas imposições. Os bispos se gabam no cumprimento ad literam dos cânones tornando-se assim os grandes doutores e detentores da lei e ‘bons meninos’ diante de Roma e do Sumo Pontífice mas ai se falharem uma vírgula...

O Anglicanismo não tem um Papa e não terá, pois no caso da Comunhão Anglicana  possui o Arcebispo Primaz da Cantuária sua Graça Justin Welby, o qual respeita a autonomia das províncias eclesiásticas e suas Dioceses dando as diretrizes aos respectivos Primazes espalhados pelo mundo. Questionar a validade da sucessão apostólica da Igreja Episcopal como também do Movimento Continuante é uma tolice, onde o próprio Arcebispo Albert Arthur Chambers (1906-1993) nomeado pela Igreja Episcopal o VII Bispo da Diocese de Springfield (USA), onde atuou nos anos de 1962-1972, promovendo o grande zelo e luta pela preservação da tradição anglo-católica.

No mais a própria história nos faz refletir, rir e chorar. Como reduzir o Anglicanismo e seus primórdios ao Rei Henrique VIII? Não foi ele mesmo como católico devoto aclamado pelo Papa Leão X como grande Defensor da Fé Católica (Fidei Defensor), pela sua Obra Assertio Septem Sacramentorum em 1521? Criticamos um divórcio e a falência de um matrimônio e nos esquecemos das falácias históricas papais?

Como considerar o ministério e sacramentos das antigas Igrejas Orientais e a Vetero-Católica? É preciso um grande respiro católico e apostólico para compreender tudo isso pelo contrário só ficará a Roma o poder de decisão da validade dos rituais sacramentais e sua liceidade (que é lícito) dos mesmos e isso não é sinodalidade, mas catástrofe eclesiológica e canonização da ignorância!

Algumas paróquias romanas andam rebatizando e re-crismando os bizantinos católicos (temos testemunhas neste contexto), como pretexto da pura fé indo assim contra ambos Direitos (Romano e Oriental) aprovados pelo próprio Papa Francisco e o fazem com grande orgulho como sinal de vitória sobre os bárbaros. Aqueles que sabem emanar belos decretos, mas sufocam a vida e a ação do Espírito  e serão assim vomitados pelo Mesmo.

O Direito deve abranger também a realidade histórica e não desconsiderar séculos de tradição e apostolicidade do Anglicanismo, sua árdua evangelização desde o século III nas Ilhas Britânicas entre as Tribos Celtas e a benção do Bispo de Roma às mesmas.

O Direito não pode considerar inválido ou ilícito aquilo que tem suas raízes na Tradição Episcopal e a longa atuação de seus ministros.

A forma ritualística compete à própria Igreja e não requer ingerência para sua validação ou liceidade. Afinal o Anglicanismo nunca quis aniquilar sua identidade católica, mas desejou respirar no espírito de liberdade e na autonomia de suas igrejas particulares que não dependem de Roma para serem válidas, reconhecidas ou não.

 

“Aquilo que anunciamos não é nosso, pois aqui na terra ninguém é mestre” (S. João Crisóstomo – Homilia XXXII, 7).

 

+ Dom Theodoro A. C. de Oliveira

Bispo Diocesano/Diocesan Bishop

Votorantim, 22/03/2016.







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