09/05/2016 - 13:03
Um convite à consciência negra


Mais de um século depois do fim da escravidão, o assunto sobre preconceito étnico parece não estar resolvido nas sociedades que aplicaram o regime existido até quase o fim do século 19. Nas escolas, o tema é abordado, mas, muitas vezes, de forma irreflexiva. Fala-se do período de forma pontual, fria e distante, sem apresentar os motivos, as opressões, as ideologias da época e o esforço predatório para dizimar as culturas indígenas e africanas.

O problema é que quando nos sensibilizamos com a história da escravidão, o discurso que segue é sobre o seu fim, como se a abolição tivesse dado o ponto final nos problemas ocorridos. Com o falso alívio, deixamos de refletir sobre os efeitos do evento, contribuindo com a negligência aos reparos sociais necessários.

A abolição foi a maquiagem da escravidão no plano do discurso, todavia, na prática, continuou o regime de opressão ao negro que, não servindo mais como objeto de trabalho, foi abandonado em meio a uma sociedade que, do ponto de vista ideológico, tirou dos africanos o bem mais precioso: o seu reconhecimento enquanto ser humano dotado de experiências e culturas – leia-se espiritualidade, sabedoria e conhecimento. Reduzidos a “coisas”, os povos africanos tiveram que reconstruir suas histórias e reerguer suas culturas com o pouco do que havia sobrado – já que a maioria das expressões africanas que não interessavam ao trabalho foram-lhes proibida.

Literalmente deixados de lado pela classe dominante da época- nas periferias e favelas, iletrados – com raras exceções – sem acesso aos estudos e, consequentemente, com poucas chances de conseguir empregos diante de uma sociedade tomada pela ideologia da superioridade e inferioridade “racial”, o Brasil produziu uma massa de pessoas carentes de tudo o que é mais básico para sobreviver com dignidade em sociedade. Portanto, é um problema esquecer que isso ocorreu há pouco tempo e, pior ainda, sustentar que os discursos contra o preconceito étnico e medidas para reduzir o problema são desnecessários ou, quando esses são vindos do grupo oprimido, dizer que são discursos de “vitimização”.

Assim, para discutirmos sobre o preconceito, cotas nas escolas e universidades, melhores oportunidades de trabalhos, criminalidade, representação do negro na mídia, etc., não temos que entender só a escravidão, mas, sobretudo, a sociedade pós-escravagista. A nossa.

 

Coluna publicada na página 09 da edição 167 da Gazeta de Votorantim de 07 a 13 de maio de 2016







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