31/05/2016 - 11:33
Lembranças de um filho de operário em Santa Helena
 Foto: Divulgação 

A vila Santa Helena junto à fábrica cimenteira

O tempo passou e ficaram lembranças de uma infância tão feliz. Agora é preciso se acostumar com a idéia que tudo muda, tudo acaba! Os cabelos brancos chegaram e mesmo vivendo outra realidade, a qualquer momento parece que vem à mente um filme do passado, fazendo viajar pelas boas recordações. É um misto de alegria e tristeza, alegria por reconhecer que tudo valeu a pena e tristeza por ter a certeza que nada volta a ser como antes.

Votorantim contava com uma “minicidade”, era a vila operária Santa Helena, um local distante do antigo centro e ali para quem nasceu e passou a infância e adolescência o espaço se tornou uma experiência enriquecedora na formação.

Noel Rocha é um desses ex-moradores, mas com uma diferença. Desde jovem, começou a escrever poesias e algumas histórias curtas que servem para retratar suas lembranças. Agora aproveita para partilhar com os amigos, uma forma de manter vivo aquilo que os uniu.

“A maioria dos filhos de operários nasciam na própria vila. Desde pequenos e espelhados no pai, se sentiam na obrigação de trabalhar na fábrica cimenteira. Ao completar 15 anos tinham seus nomes selecionados para logo terem o mesmo destino. Guardo até hoje a carteira de trabalho onde registra o primeiro emprego. Era Aprendiz de Mecânica/Elétrica. Ganhava 27 centavos pela hora trabalhada e a função era varrer e limpar a oficina, além de fazer a troca do óleo dos compressores” relembra Noel.

Mas para chegar a essa condição, os filhos desde pequenos, viam orgulhosos seus pais saírem uniformizados diariamente das casas em direção à portaria da fábrica. Observavam com o desejo de quando crescerem, ter o mesmo caminho.

A infância ia passando em meio às brincadeiras tradicionais na rua como jogar bolinha de gude, soltar pião, bater corda, passar o lenço no meio de uma roda, usar nas descidas o carrinho de rolimã e nem todos tinham bicicletas, então emprestava dos amigos e dava algumas voltas pela vila.

“A praça Brasil, em frente da igreja Santa Helena, exercia um fascínio. Era bem cuidada e arborizada, tinha coreto e chafariz. Todos os adolescentes passavam por lá. A iluminação contava com luzes brancas e azuis, em referência a padroeira do bairro Santa Helena. Ali os amigos se reuniam e passávamos o tempo cantando” destava Noel.

Imaginar que além da praça e das ruas movimentadas pelo grande número de crianças, outros espaços ofereciam boa diversão à família como o braço de água da Prainha, os passeios na Fazenda São Francisco e as idas nos finais de semana à Vila da Light para curtir a Cachoeira São Francisco e as pequenas quedas de água logo abaixo.

“Algo que também marcou minha infância foi que até aos 13 anos ia a uma das portarias da fábrica para levar a marmita ao meu pai. A única forma de conversar com ele era por telefone, que não tínhamos em casa! Mas quando eu chegava com a comida e ligava no setor de trabalho, escutava a sua voz e eu dizia com orgulho ‘Pai, sua janta está aqui na portaria’. Para mim era uma felicidade e pensava comigo mesmo, que um dia seria eu que estaria do outro lado, esperando a marmita chegar” comenta Noel.

Esse jeito simples de viver garantia maior união entre as pessoas, que celebravam juntas as datas comemorativas do calendário. Até os vizinhos se ajudavam quando estava acabando a compra no final do mês e se emprestava um pacote de farinha de trigo ou uma lata de óleo.

As crianças estavam seguras brincando na rua, mas teve uma novidade que foi a chegada dos aparelhos de televisão nas moradias. “Eu gostava de ir na casa da dona Aparecida, sentava na área de entrada da sala e assistíamos a transmissão em preto e branco, depois soube, como todo brasileiro é muito criativo, que pegavam celofanes de várias cores, feitos na fábrica papeleira Votocel e colocavam na frente do monitor, só para dizer que tinha imagem colorida” finaliza Noel.

Esses relatos de Noel Rocha reforçam o quanto as crianças eram felizes sem os jogos eletrônicos de hoje. Agora mora bem longe, em Miami, mas sempre vem a passeio para rever os amigos.

(Cesar Silva é jornalista formado pela Uniso, gestor público pós-graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (Unirio), membro da Academia Votorantinense de Letras, Artes e História e autor de três livros sobre a história de Votorantim)

 

Coluna publicada na página 12 da edição 170 da Gazeta de Votorantim de 28 de maio a 03 de junho de 2016







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