08/08/2016 - 13:42
Costuras do sensível


Exposição Ciranda das Mãos, inaugurada dia 05 de maio e que vai até 28 de agosto no SESC Sorocaba, mistura cultura popular, universo infantil, trabalhos artesanais, inventividades lúdicas e um mar de referências do folclore nacional. A exposição é uma excelente oportunidade para nos reencontrar com o mundo humano, material e analógico.

Na parte externa, logo na entrada, numa espécie de bandeira de aviso feita de pano e bordados (na qual já se anuncia a riqueza dos detalhes que encontraremos no interior da exposição), há o texto que apresenta a proposta, assinado por Míriam Cris Carlos que nos lembra: “Mais do que nunca é Tempo de Brincar, pois, atordoado pelo excesso de aparatos tecnológicos, o corpo adoece e esquece-se do outro...”.

A cia sorocabana Tempo de Brincar composta pelos artistas Elaine Buzato e Valter Silva são os idealizadores e assinaram a direção da exposição. Ainda na parte de fora é possível encontrar um “cinema artesanal”. Neste cinema inventado, há arquibancadas fofinhas, tapete de centro e a tela com moldura de fuxico de cetim violeta exibe os videoclips da cia, tudo numa parede-painel em que pinturas de grafite se misturam. Chama atenção a de um saci-ciborgue que denuncia o mundo “tecnocorporificado” em que vivemos, nele nem folclore escapa.

Os grafites nos alertam para a ameaça que a “softwarização” de tudo causa, inclusive às tradições populares pintando com seus traços de spray os riscos que corremos de nos esquecer delas num esborrifo histórico. Os grafites são assinadas por Michael Japs e Will Ferreira.

O “fora” da exposição funciona como um aviso que nos prepara, nos lembrando quem nos tornamos e que será preciso adentrar consciente disso, para então, poder enfrentar a intensa delicadeza e poesia que nos espera lá dentro. Delicadeza poética a qual perdemos a competência e habilidade de conviver.

O interior da exposição de tanta poesia perfura, feito Uma faca só lâmina do poeta João Cabral de Melo Neto que por não ter bolso nem bainha entra direto na carne.

A cenografia e disposição expográfica de Elaine Busato e Luciana Valsechi leva nosso corpo a caminhar num chão-céu com teto ou num teto-céu com chão ou num chão de céu. O fato é que ao entrar o corpo é suspenso pelo chão azul escuro e pelo teto azul celeste que da o contraste necessário para a leveza que o percurso nos conduz.

No teto-céu nuvens de renda, fuxico, guipir, tricô, crochê e bicos de lese pluralizam as texturas efêmeras de um nublado que ilumina com um branco cetim. Nas paredes a lua é vizinha do sol, dela despencam estrelas, personagens e crenças, já do calor dele chovem almofadas de coração.

O pilar da arquitetura predial vestida de tricô se transforma em árvore cujo os frutos são corações, os galhos-varais se frutificam em cartas de remetentes e destinatários poéticos com conteúdos que versam suas materialidades entre escultura, costuras, timbres e melodias.

No rodapé ao invés de azulejo há caminhos de renda e lese, as paredes ao invés de inteiriças e monolíticas são interrompidas por uma fenda que junto com a janela inventa um fora-dentro que atravessa o espaço de convivência do SESC, misturando o público e o privado, a esfera íntima e suas fissuras que escorrem até a área Kids do SESC onde vestígios da exposição convive com as crianças por meio de adereços, puffs, almofadas e brinquedos com características estéticas marcadas pela exposição.

A maior parte da exposição é iterativa tátil, auditiva e visualmente, raras exceções quando os objetos não devem ser tocados ao invés de vidro, uma tela de mosqueteiro nos separa com sua transparência, nos permitindo mesmo assim tocar e ser tocado pelos objetos. As materialidades que separa, junta e aproxima, se encostam em nós e são todas elas derivadas de um dedicado trabalho de pesquisa que se explicita a cada piscar de olhos.

As citações da cultura popular são encontradas em cada detalhe, mesmo nos mais sutis, como a escultura de São Jorge sobre a lua de pano que faz alusão a tradição popular que diz ser a mancha da lua avistada a olho nú da terra, a sombra de São Jorge em cima de seu cavalo e que virou a canção Lua Bonita de Ze do Norte no trecho eternizado por intérpretes como Raul Seixas e Maria Bethania a letra diz: “... Lua bonita, me faz aborrecimento, ver são Jorge no jumento pisando em seu quilarão...”.

As bandeiras Volpi adornam os contornos dos objetos mais distintos enquanto o olho a cada relance se depara com um trabalho manual. Trabalho manual que merece destaque é a marcenaria-lírico-poética intitulada Teatro de Traquitanas, obra de Leonardo Gallep, que faz uma síntese competente da exposição quando mistura trabalho artesanal, música popular, poesia, historia, universo lúdico e interação no mesmo objeto. A manivela que revela a beleza da obra também nos responsabiliza. As engrenagens e a magia deste universo é acionada pelo nosso esforço comprometido e também dependem dos força de nossas próprias mãos. Só quando você age ele existe.

O tricô, fuxico, rococó, guipir, renda, tule, lese, chita, cetim, bordado, ponto cruz, entre outras inúmeras materialidades e técnicas, somados ao valor do artesanato, dão forma a um mundo criado pelo conhecimento das mãos, um mundo que existe manualmente e que está em sintonia com outras iniciativas artísticas que resistem nesta mesma direção, como o universo do brincante consagrado por Antônio Nóbrega e com a mesma preocupação que se pode encontrar no filme Território do Brincar de David Reeks e Renata Meirelles (2015).

A exposição Ciranda das Mãos é uma explosão de convocações sensoriais, texturas, cores, formas e além disso, seu aspecto político é também palpável – num mundo onde as telas e o virtual venceram, é preciso resistir com as mãos que bordam outras histórias em suas telas de pano.

A experiência ensina a difícil tarefa de reconhecer que: quando no Brasil a política virou brincadeira, o tempo de brincar se torna um ato político.

 

Coluna publicada na página 10 da edição 180 da Gazeta de Votorantim de 06 a 12 de agosto de 2016







Deixe seu Comentário

Newsletter
Cadastre seu email e receba nossos informativos e promoções de nossos parceiros.