13/05/2014 - 14:08
Uma alquimia musical


*Análise cultural


Para quem esteve no último dia 27/04 na praça Zeca Padeiro por volta das 20h, terá sempre o privilégio de testemunhar o encanto que foi conferir o show de Hermeto Pascoal, que com sua figura meio mago, meio bruxo, meio alquimista da música experimentou os ouvidos de quem lá esteve.
Parece até magia mais não é. O que Hermeto consegue com sua arguta percepção, astúcia auditiva e sensibilidade artística, é produzir num instante único uma espécie de polifonia poética, tão lindamente impressionante que nos faz perguntar se aquilo pode mesmo ser chamado apenas de música, ou se merece outro nome.
Parecem ser esculturas musicais, pois de tão presente no estado de um fazer musical que ele se coloca, nos faz ter a sensação que ali nunca se ouve uma música em si, porque isso não interessa, mas apenas o seu fazer musical, o que é uma rara oportunidade. Vão sendo esculpidas esculturas de música, que a cada momento ganham uma forma, um volume, uma curva, um traço mais rustico, outro mais detalhado, um novo angulo sonoro, e assim, vai se montando uma peça de vários módulos onde não se pode mesmo definir seu tamanho e peso, apenas senti-lo e percebe-lo com os ouvidos que vão se alargando com a espessura do som que soa sempre como esboço e não se preocupa em desenhar-se.
Como ele vai improvisando e fazendo tudo ali na hora, a sensação que dá é que estamos acompanhando o cozimento de um prato musical. Ele parece um alquimista da música, porque vai convocando os sabores de cada instrumento aos músicos, pedindo mais acentos, temperando, depurando e fazendo misturas composicionais surpreendentes, e nesse “cozinhar”, nossos ouvidos vão sendo nutridos por uma experiência revigorante. É com sensação de saciedade que se vai embora.
Toda essa mistura requintada exige ainda mais atenção, pois como as misturas são ágeis e as transições quase imperceptíveis, o ouvido tende a deixar de identificar as transformações e nuances e fica fácil parecer que não se passa de uma barulheira, de uma cacofonia musical, quando na verdade o que nos falta mesmo é ouvido habilitado para reconhecer dentre as misturas todas, a poética “plurifônica“ que enriquece a noção que nossos ouvidos carregam sobre música.
Hermeto Pascoal dilata nossos ouvidos dilatando também nossa compreensão sobre som, música, poética, melodia, compasso, tempo, silêncio, cadência, harmonia, ritmo, pulso e o que de fato são as matérias que possibilitam construir essa coisa chamada música.   
Foi através do Circuito Sesc de Artes (Sesc Sorocaba), em uma parceria com a Prefeitura de Votorantim, por meio da Secretaria de Cultura que toda essa beleza pode acontecer e que possibilitou esse privilégio precioso ao público votorantinense.
Em tempos onde na indústria da música popular o que se tem está quase sempre circunscrito por uma precária e tirana monofonia, ver Hermeto nos faz lembrar o sabor delicioso que tem a riqueza poli e heterofônica e do poder libertário que permite a música, por ela mesma, escapar das lógicas consagradas pelo mercado que tendem a empobrecer cada vez mais aquilo ao qual a música parece não ter vocação – sua hegemonia.

 


publicado na edição n° 67 de 10 a 16 de maio de 2014 do Jornal Gazeta de Votorantim, na página 09







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