08/11/2016 - 14:13
Ensaio para não viver


Desde 1830 os estudos acerca do estado físico do vidro trazem amplas reflexões físico-químicas. Por não apresentar um arranjo atômico com simetria e periodicidade translacional, o vidro é um estado de instabilidade física. Formado por uma rede tridimensional estendida e aleatória, seus átomos não encontram conforto na estabilidade cristalizante e se mantem num estado sólido amorfo, se diferindo dos cristais apenas pela sua transição vítrea, uma espécie de choque térmico que o torna matéria singular em seu fazimento. Ou seja, mesmo quando aparentemente sólido, o vidro está derretendo. Escorre num tempo capaz de trair a nossa percepção.

Vale entender um pouco isso para poder chegar mais perto do estágio mais recente da pesquisa artística de Vera Sala. Em Estudo 2 Para Lugar Nenhum a artista constrói um corpovidro que aparentemente não se move, só escorre transbordando-se.

Em cartaz de 16/09 a 02/10 no CCSP, a instalação aconteceu no espaço anexo a Sala Adoniram Barbosa, uma espécie de porão onde a iluminação e cenografia de Hideki Matsuka hostilizam poeticamente o espaço.

O corpo treme, os joelhos se encostam um dando apoio ao outro, o olhar escorre pra nuca, a cabeça tomba e derrete a cervical, os braços atrofiam, os espasmos pululam, a respiração é discreta. No fundo paredes de vidro, no chão apenas cacos e raios de luz sobre poças d’água que hora parecem ser outros cacos, ou pedaços líquidos de um vidro que não quebra, mas que escorre, um mosaico uniforme de transparências sobre um chão escuro.

A descrição destes detalhes vale para formular o ambiente que tudo isto produz, um ambiente onde melancolia mortífera, vitalidade poética e discurso político se amalgamam em torno do corpo que o grifa com seus micro gestos.  
Vera Sala vai morrendo muitas vidas e vivendo muitas mortes na sua dança ambígua de quem não pode se mover, mas precisa do movimento pra testemunhar sua existência.

Enquanto o quase nada vai produzindo um lugar nenhum, a percepção de quem assiste vai sendo agressivamente convocada, os olhos não são permitidos a funcionar como janelas que se abrem para uma paisagem cênica, mas operam como vitrais góticos que turvam a luz e impedem o conforto estável de enxergar apenas o que se quer ver.

O desconforto de achar que não há nada pra ver, vai revelando e ao mesmo tempo nos ensinando que observar este nada num lugar nenhum vai se tornando um lugar para estar, um algo a se perceber. Na medida em que o corpo insiste em esgotar-se de gestos, em escorrer lentamente, em estar num estado amorfo, sem parecer liquido nem sólido, esta insistência vai revelando a potência da impotência, vai estilhaçando nossa percepção como um golpe violentamente discreto, sem chance de se defender, como uma crise entrópica que invade a vida e a transforma em matéria finita. 

Dói quando o olho aprende a enxergar a beleza da morte, dói entender que uns precisam ficar para outros irem, ou outros irem para uns poderem ficar. Vera Sala vai matando os gestos para que fiquem apenas os que revelam a produção deste conhecimento.

Sons estridentes são capazes de explodir cristais, Estudo 2 Para Lugar Nenhum é um silencio que guarda a potência de estilhaçar o escuro.

Aprender a morrer é da ordem do sofrimento.

Serviço

Neste sábado 15 de outubro as 19h no CRD (centro de referencia da dança)
Endereço: Galeria Formosa - Baixos do Viaduto do Chá, s/n - Centro, São Paulo – SP.
(11) 3214-3249
Grátis.







Deixe seu Comentário

Newsletter
Cadastre seu email e receba nossos informativos e promoções de nossos parceiros.