21/11/2016 - 11:48
Umbanda: um retrato da cultura brasileira


Falar da Umbanda é um desafio, pois requer uma viagem às suas origens. Digo origens porque ela é um elemento cultural híbrido, ou seja, formada a partir de manifestações culturais diversas e marcada pela resistência da cultura africana que, desde a escravidão, sofreu muitas tentativas de aniquilação.

No período colonial, muitos africanos foram sequestrados de suas terras a fim de atenderem ao sistema imposto pela cultura dominante europeia em terras “descobertas”. Aos escravos, restava uma vida miserável e sofrida, mutilados de suas famílias, territórios e, sobretudo, de sua cultura. No entanto, ainda que se possa tirar de um ser humano toda a sua cultura material, a imaterial é mais difícil, pois está no interior do ser. Com os africanos, o Brasil recebeu um legado de culturas que transformariam a identidade nacional para além das imposições europeias.

Mas não foi nada fácil. Toda manifestação que oferecesse a mínima ameaça ao sistema vigente foi castrada e, no lugar, imposta aquela que deveria ser seguida. Logo, as religiosidades africanas não podiam ser praticadas. Ora, as instituições dominantes muito sabem que a religiosidade é cultura fundamental para a união e fortalecimento de diversos grupos. Como lembra Rubem Alves, o discurso religioso procura transformar coisas brutas e vazias em elementos carregados de sentidos, que se tornam parte e extensões do mundo humano. Para o autor, todas as religiões, por mais distantes que pareçam, buscam pensar a realidade a partir do desejo de que “a vida faça sentido”.

Talvez, a religiosidade africana fosse o elemento cultural mais ameaçador para a ordem exploratória vigente. Deste modo, impuseram-se, pelo menos, três maneiras para sua contensão: proibição, instauração do medo com relação às práticas e a imposição do cristianismo. Sobre o medo, Terry Eagleton lembra que faz parte da cultura dominante selecionar aquilo que serve ou não, ou seja, inspirar o que interessa e intimidar aquilo que ameaça. Logo, as religiosidades africanas foram tratadas como manifestações que cultuavam a “negatividades”. Esse tratamento pejorativo fez com que elas fossem assimiladas a tudo o que era ruim, o que prevalece com força até a atualidade.

Mas voltemos ao sistema escravagista. Como já dito, é possível destruir a cultura material de um grupo, mas não a cultura imaterial, lugar da religiosidade. Assim, obrigados a praticar o Catolicismo, os escravos encontravam nele formas para manifestar a religiosidade de origem. O Candomblé, uma das crenças africanas mais presentes no Brasil, passou a ser praticado em conjunto com os elementos do cristianismo. Os Orixás, divindades africanas, foram assimilados aos Santos católicos, de modo que os africanos cultuavam às imagens católicas referindo-se, na verdade, aos Orixás.

Desta forma resistente, as culturas foram se interligando. Já não era mais o Candomblé, tão pouco o Catolicismo. As imagens dos Santos passaram a, de fato, representar também os Orixás. Outras crenças que buscam explicar a existência e a vida futura – o pós-morte, como coloca Marilena Chauí – foram incorporadas a essas práticas híbridas, como o espiritismo, que tem sua origem na França, e as crenças indígenas brasileiras.

Destas misturas culturais surgiu a Umbanda, uma religião brasileira pautada a partir do sincretismo e que, por sua história marcada por preconceitos e lutas de resistência, ainda é pouco incompreendida em boa parte do Brasil. A própria cultura do Brasil ainda é incompreendida por ser fruto de processos híbridos, termo explicado por Néstor García Canclini. A Umbanda é, portanto, um retrato da cultura brasileira e que precisa ser melhor compreendida.

Torna-se contraditório quando imaginamos as ideias negativas atribuídas à crença e nos deparamos com o seu principal lema: “Amai-vos uns aos outros, manifestando na prática da caridade, tanto na palavra como na ação”.

Torna-se ainda mais contraditório quando praticamos a alteridade e percebemos uma manifestação que não se relaciona com aquilo que é predominantemente presente no discurso do senso comum. Foi o que ocorreu com as alunas Mariana Bonini, Roberta Lourenço e Sarah Rappl, do curso de Jornalismo da Universidade de Sorocaba, que produziram um livro de ensaio fotográfico como trabalho de conclusão de curso. O trabalho apresenta imagens que desvelam o olhar dessas estudantes para algo que foi desmistificado e revelado pelas suas pesquisas e lentes, produto para o qual tive a honra de escrever o prefácio que resultou neste artigo.

Deste modo, precisamos falar muito mais sobre a história e as produções culturais características do país. Só assim conseguiremos promover a reflexão que resultará na empatia, por meio do entendimento e valorização do que também é nacional. Como destacou Guerreiro Ramos, em 1950, “O negro é povo no Brasil”.

 

Coluna publicada na página 08 da edição 196 da Gazeta de Votorantim de 19 a 25 de novembro de 2016







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