23/11/2016 - 14:24
A pele como uma dramaturgia dos avessos


Num sentido anatômico e não matemático, a matriz é o órgão das fêmeas dos mamíferos, na cavidade pélvica, onde o embrião e posteriormente o feto se desenvolvem. Neste sentido pode-se dizer que as matrizes da TF Style cia de dança derivam das danças urbanas.
Em Sob a Pele (2016), sua mais recente coreografia, a TF vai aos poucos misturando no corpo um fazer com atravessamentos no qual as danças urbanas se tornam uma espécie de perfume da memória uterina.

Dirigida pelo bailarino Igor Gasparini e realizada pelo seu afinado elenco, a cia materializou nos últimos nove anos um percurso no qual produziu oito coreografias. Um número admirável quando se sabe que há um contingenciamento cultural no qual a falta de financiamento dos trabalhos artísticos hostilizam a sobrevivência de grupos e sua produtividade. Neste caso, a pulsão criativa driblou o contingente fazendo disso um dos traços principais do percurso profissional da Cia.

Com as raízes coreográficas na rua e seus frutos dramatúrgicos no palco, o desafio desta proposta artística parece ser o de conciliar a leitura contemporânea que faz das danças urbanas com o modo composicional de realizar suas obras.

Sob a Pele cumpre a tarefa artística de perturbar os hábitos cognitivos da plateia e não atender a expectativa do ideário comum associado ao Hip Hop, todavia vale se atentar para uma lógica que a obra revela. Nela parece conviver dois entendimentos de dança. Num a dança é uma conversa do corpo com o espaço, noutro os movimento e os espaços são usados para tentar falar algo. Uma dramaturgia feito pele que não se contradiz, mas tem avesso.

Na história da dança cênica, a certa altura, do barroco ao período romântico, a dança deseja contar uma trama, já na modernidade ela abandona a necessidade de contar uma historia, mas ainda tem a necessidade de comunicar um assunto ou tema do qual fala sobre. Mais adiante, na pós modernidade alguns artistas entendem que quando a dança é usada como suporte de metáforas e mensagens, ela fica refém desta função e se esvazia na potencia de gesto, por isso tentam emancipar a dança destas funções, permitindo a dança explorar a si mesma e dizer-se. 

As danças cênicas tem uma história diferente das danças urbanas, todavia vale lembrar que em sua matriz as danças de rua, quando estão na rua, elas tendem a explorar a plenitude dos gestos, ou seja,  o jeito de fazer aquele movimento e de mover-se com ele, raramente tem a intenção de significar algo para além do gesto. 

Quando a dança de rua entra no palco, o que ficou na calçada? Esta parece ser a pergunta que a TF Style cia de dança tem se feito e que Sob A Pele explora poeticamente. As vezes na cena existe apenas um ambiente sonoro e uma conversa do corpo com ele, não uma legenda sublinhadora, em diversas situações nossa percepção é convocada a seguir lendo um corpo que comanda a dramaturgia, que se apoia no seu gesto para comunicar-se.
Noutras situações, por terem narrativas próprias, as músicas atrapalham a narrativa do corpo, elas se sobrepõem, ganham mais espaço que o corpo que dança e se tornam protagonistas da cena.

São dois tipos de entendimento sobre cena e dramaturgia que conflitam em Sob a Pele, um entendimento se escama no outro e ainda não fica claro se o confronto é para um extinguir o outro, ou se é para deste atrito vencer um jeito de fazer que ainda está em curso.  

A obra coreográfica permeia uma camada estética fina da pele que tange,  vai se descascando e deixando em suspenso se as próximas criações não se importarão com a cobrança de contar algo, dar uma notícia ou fazer uma pergunta e assim passar a existir em sua plenitude como dança, ou se a exploração investigativa de sentidos seguirá na direção de emitir mensagens com o corpo.

Seja uma ou seja a outra, o mais importante parece ser a continuidade desta proposta, pois só o fazer poderá responder a pergunta que ele mesmo se fez. Felizmente de pele trocamos todos os dias.







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