19/12/2016 - 12:06
O topa tudo pela audiência e o espetáculo sobre a Chapecoense


Os veículos de comunicação sempre guerrearam pela audiência, seja por meio de programas de entretenimento ou pelos furos nos jornalísticos. Com a chegada da internet e a sua força informacional intensificada com o advento das redes sociais, a mídia tem apresentado desespero para manter o público ligado aqui e não ali.

Essa ansiedade, que tem como motivação os fins mercadológicos, atingiu um de seus picos com a queda do avião da LaMia que transportava o time da Chapecoense e jornalistas esportivos. Ocorrida em 30 de novembro de 2016, a tragédia foi transformada em espetáculo em diversos veículos de comunicação, que interromperam suas programações para saciar a curiosidade do público comovido com o ocorrido. Aliás, quem não fica comovido com uma notícia dessas? Ocorre que existem situações que devem ser pensadas e tratadas com o dobro de cuidado. O portal Catraca Livre fez diversos posts de mau gosto e sem ética, entre elas, uma que expunha fotos de pessoas antes de suas mortes; já a Globo alterou toda a sua programação e, do mesmo modo, exibiu ininterruptamente o time vibrando com vitórias e um vídeo gravado minutos antes do avião decolar, mostrando a equipe animada. Enquanto isso, Fátima Bernardes tentava contato com familiares e amigos das vítimas recém-reveladas. Na porta do hospital no qual estavam os poucos sobreviventes, a repórter replicava o que “parecia ter ouvido” dos médicos: “o estado é grave e parece que a vítima ficará tetraplégica”. Já uma loja de artigos esportivos dobrou o preço da camisa oficial da Chapecoense.

Cabe ressaltar que essa exposição sacia a curiosidade do povo que não possui contato direto com as vítimas, por outro lado, machuca os próximos, sendo capaz de causar danos ainda piores aos familiares e amigos que a todo o momento acompanham o espetáculo em cima da tragédia.

O espetáculo, infelizmente, tornou-se ferramenta essencial para disputar a audiência. Esta, por sua vez, garante que as agências de publicidade selecionem os veículos que possuem maior número de receptores para apresentar os produtos e serviços de seus clientes, garantindo retorno financeiro a eles e aos veículos. O respeito às vitimas, familiares e amigos pouco importa à mídia, a não ser que contribuam para o espetáculo. Creio que isso tenha ficado mais evidente com esse triste episódio. Isso tudo porque não há regulamentação eficaz que controle os abusos midiáticos.

Resta à população despertar para o bom senso. Neste caso, o exercício de empatia ajudaria a perceber as crueldades com as vítimas, familiares e amigos. A informação é necessária, a homenagem é justa. O espetáculo é danoso.


Coluna publicada na página 10 da edição 200 da Gazeta de Votorantim de 17 a 22 de dezembro de 2016







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