13/03/2017 - 14:27
O carnaval que foi mais popular


Por muitas décadas, o carnaval do Rio de Janeiro serviu como manifestação cultural que tinha por finalidade a comunicação de resistência. Era o evento que fazia o povo aparecer em vários aspectos, da simples ocupação no espaço televisivo que era quase nulo, sobretudo, aos negros à toda rica cultura que emerge das margens, como os sambas que clamavam a cultura e os problemas dos morros, compostos por sambistas locais.

Já em 1975, José Ramos Tinhorão publicou na revista O Cruzeiro um artigo que chamava a atenção para o fato de que o carnaval estava se transformando em uma manifestação estrangeira. O teórico falou sobre a entrada das empresas no evento e a redução das manifestações culturais populares ao desejo dos patrocinadores. O carnaval carioca foi se calando com parte de seus sambas encomendados a outros músicos que não os locais e que, portanto, trabalhariam temas de interesse do capital, bem como as fantasias passaram a ser desenhadas por profissionais da elite, esta que também desfilaria pela avenida.

Em 2017, pudemos observar uma significativa mudança em alguns discursos carnavalescos. A escola Imperatriz Leopoldinense, com o tema Xingú, provocou o agronegócio em defesa das florestas e dos índios, ao passo que a Mangueira, assim como a Imperatriz, levou para a avenida e para todo o Brasil – através da Rede Globo, o tema da religiosidade africana tão presente em nosso país, mas pouco abordado de forma positiva pela grande mídia brasileira.

Parece que a diminuição de patrocinadores em decorrência da crise que afeta o Brasil devolveu ao povo a liberdade para falar sobre o que deseja e sobre aquilo que realmente é parte cultural do povo, de maneira mais livre.

Os sambas-enredos das duas escolas afrontam os discursos dominantes, de modo a provocar discussões e reflexões sobre temas pouco abordados pelos grandes veículos, especialmente, aqueles que têm exclusividade para a transmissão da festa. O carnaval de 2017 fez valer a cultura popular de resistência, devolvendo um pouco de esperança sobre o uso de manifestações culturais como forma de resistir frente às omissões e imposições dominantes.

Thífani Postali
Doutoranda em multimeios pela Unicamp, mestre em comunicação e cultura e professora da Uniso. Blog: www.thifanipostali.com

 

Coluna publicada na página 10 da edição 209 da Gazeta de Votorantim de 11 a 17 de março de 2017







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