14/03/2017 - 11:20
Parte 4 - A experiência pedagógica beneditina em Sorocaba

(Parte 4 de 4)


Maria Aparecida de Lima Madureira *


A Cultura Escolar do Colégio Santa Escolástica

 

As instituições escolares, ao transmitir cultura, também criam cultura. Essa produção é parte significativa da relação educativa. As apropriações das pessoas que viveram as ações de uma instituição escolar fundamentam a nossa pesquisa, baseada na investigação da construção da identidade institucional. Em depoimentos, os ex-alunos expressam lembranças dos professores o que denota vínculo e respeito, mesmo em um tempo no qual sua autoridade deveria ser respeitada em qualquer situação.

O Colégio Santa Escolástica possui, para a maioria dos ex-alunos que frequentaram a instituição nas primeiras décadas do século XX, uma aura de austeridade, silêncio, introspecção e reflexão. É comum, entretanto, encontrar nos depoimentos histórias de castigos em quartos escuros, quando os alunos ou alunas não cumpriam as regras pré-estabelecidas pela escola.

A rigorosidade das atitudes em relação à educação é um misto de cuidado excessivo e de responsabilidade por aqueles e aquelas que ficavam sob os cuidados das madres. A rigorosidade, no entanto, não significava que o controle era inteiramente mantido. As histórias dos escapes, nos relatos, também são notórias e engraçadas. A revista de 1955, ano do jubileu de ouro do Colégio, traz uma dessas histórias, aqui reproduzida por ilustrar as engenhosidades que os alunos usavam para fugir da severidade das religiosas.

Entre as muitas peripécias da vida escolar no colégio, recordo-me de um castigo que recebi da Madre Ermentrudes ou Hildegardis (1925), que me levou arrastado para o célebre quarto escuro (que não mais existe) que era uma das sanções penais para os estudantes faltosos ao regulamento. Ali fiquei algumas horas. A madre bondosa, devido a suas múltiplas ocupações esqueceu-se do prisioneiro. E, quando à tardinha se lembrou, correu triste exclamando: “Coitado do Gualberto!” Abriu o quarto escuro. Qual não foi sua surpresa – estava vazio. Eu havia fugido, conseguindo abrir o trinco de 2 metros de altura com uma vassoura rodo. Alcançara a Igreja onde D. Adalberto rezava, e ganhara a rua gostosa, mas mentirosamente, pois, interpelado pelo bondoso padre, dissera-lhe que ia até minha casa buscar o lanche que havia esquecido. –Vai com Deus, meu filho, exclamou o piedoso padre. Dois dias perambulei pelas cercanias do colégio, até Lazinho Ribeiro, enviado da paz da Madre, me levou para pedir perdão. E ela, como sempre – perdoou. Que Deus a tenha no seu santo reino, são as nossas preces... Dr. Gualberto Moreira (médico e ex-prefeito da cidade de Sorocaba. (REVISTA ORA ET LABORA, 1955, p. 36) 

Entre 1905 e 1950, a institucionalização do Colégio Santa Escolástica foi sendo construída em função de circunstâncias históricas que as religiosas encontraram e promoveram. Ao se instalar na cidade no começo do século XX, revitalizaram elas o vínculo que Sorocaba possuía com a ordem beneditina desde a fundação, no século  XVII. A presença das missionárias em Sorocaba permitiu que a instituição escolar se organizasse a partir de fundamentos elaborados há pelo menos quinze séculos, já que as religiosas representavam instituições que se ligavam ao campo educativo havia centenas de anos. A consciência do legado que carregavam e a missão que deveriam cumprir para que o mesmo se concretizasse no espaço brasileiro e sorocabano foram fecundas e promissoras.

Por paradoxal que possa parecer, o passado é uma perspectiva que fundamenta e dá sentido ao fazer educativo das religiosas, projetando a tradição que o Colégio Santa Escolástica emana. Essa projeção é encontrada em inúmeras formas: nos símbolos que remetem ao passado, imagens dos santos que compõem a decoração do ambiente escolar, a presença das religiosas com suas vestimentas.

A organização da vida escolar, como se observou, experimentou toda uma rigidez em torno dos horários e a exigência de comprometimento com os estudos. O regulamento da vida beneditina se faz sentir nas situações escolares. O espírito de cultura trazido pelos princípios beneditinos norteia o trabalho educativo ali efetivado: "(...) desenvolvimento do combate à mediocridade, do clima sério de trabalho, da competência de cada educador, do aprofundamento de todos os aspectos do ser humano: físico, afetivo, intelectual, social e religioso.” (BOSCHETTI, s/d, p. 7).

A concepção educacional das religiosas de Tutzing traz um respeito profundo pelo passado e uma responsabilidade no tratamento com o educando – traços conservadores que foram espontaneamente acolhidos pela cidade de Sorocaba, favorecendo a defesa de uma postura tradicional em relação ao trabalho educativo. O passado não tem a mesma importância para as concepções atuais em educação, e a tradição é vista, muitas vezes, como uma condição inadequada para a modernidade. Hannah Arendt trata dessa questão ao analisar, num texto de 1957, a crise da educação nos EUA.

A verdadeira dificuldade da educação moderna reside, pois, no facto de, para lá de todas as considerações da moda sobre um novo conservadorismo, ser hoje extremamente difícil garantir esse mínimo de conservação e de atitude de conservação, sem a qual a educação não é simplesmente possível. E há boas razões para isso. A crise de autoridade na educação está intimamente ligada com a crise da tradição, isto é, com a crise da nossa atitude face a tudo o que é passado. Para o educador, este aspecto é especialmente difícil, uma vez que é a ele que compete estabelecer a mediação entre o antigo e o novo, razão pela qual a sua profissão exige de si um extraordinário respeito pelo passado. (ARENDT, 1957, p. 12)

O monumento que a ordem beneditina vem construindo há quinze séculos, por obra de pessoas, incluindo o trabalho das religiosas em Sorocaba, foi chamado pelos contemporâneos e estudiosos do campo educativo de tradicional. No âmbito acadêmico, essa conceituação pode ser vista como uma crítica à educação conservadora que a Igreja Católica, com seu poder, imprimiu por muitos séculos. O projeto educativo cristão deu as bases para a criação da Europa e contribuiu significativamente com a cultura da civilização ocidental. É esse monumento que recebe o nome de tradição. No centro dessa tradição encontram-se os elementos constitutivos de uma finalidade formativa que tem como pressuposto a visão universal de homem, conservadora e sobrenatural. Mas, uma finalidade que segue orientando o desejo de construção de um mundo que possa efetivamente cuidar das novas gerações, resgatando o ideal clássico encontrado na síntese de Políbio, de que educar é permitir que se seja digno dos antepassados.

 

 

Maria Aparecida de Lima Madureira é doutoranda em Educação pela UNISO.

cidalimadureira@uol.com.br







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