16/06/2014 - 11:26
Um outro modo de ver a Feira da Lua


São nas noites de terça-feira, que o vento sopra e espalha o cheiro de gordura do pastel, dos temperos e dos perfumes das frutas dos feirantes, enquanto os ciclistas, skatistas, longboardistas, patinadores, corredores, funkeiros, rockeiros, violonistas amadores, pregadores evangélicos, casais de namorados, amigos, famílias e outros inúmeros grupos sociais passeiam, discursam, namoram, se manifestam na praça de eventos (Lecy de Campos) no Centro de Votorantim.
Lugares públicos com tanta diversidade têm muita potência de vida e também muita complexidade. Nem sempre, este tipo de potência vital é percebido pelo poder público, que deixa escapar a possibilidade dela ser explorada no que tem de melhor e ser transformada em uma política pública para a cidade, ou seja, para o benefício dos seus habitantes. Infelizmente ainda não foi percebido este potencial e o florescimento dessa potência segue ameaçado pela falta dessa percepção. Quando isso não é percebido, abre-se espaço para vencer pensamentos que vão ao contrario disso, como por exemplo o pensamento que se apoia na problemática associação estereotipada que trata o pobre e o fã do funk como sinônimos de maconheiro. A matéria “Adolescentes se excedem em rolezinhos na praça de eventos”, publicada na edição de 17/05 pelo jornal Gazeta de Votorantim, reforça este preconceito porque não levou em conta tudo o que exige a riqueza do fenômeno que vem se dando ali.
São tribos muito diversas e, como vem sucedendo em todas as cidades, os traficantes de drogas são muito ágeis em identificar boas oportunidades para a sua expansão. Infelizmente, este grupo, que não é a maioria, também se instalou na Feira da Lua. O que vinha se tornando um polo para a manifestação cultural livre e produtiva foi logo reconhecido pelo tráfico, antes que o poder público reconhecesse o potencial promissor de uma sociedade civil que se organizava pacificamente, sem perder a sua diversidade. Como não foi realizada uma política de fortalecimento do tecido social no promissor espaço que ali se constituiu espontaneamente, ele se tornou vulnerável à ação de um grupo que não deveria ter encontrado possibilidade de lá se estabelecer.
A matéria citada retratava o ocorrido no dia 13 de Maio, ocasião em que a Secretaria de Cultura promoveu a atividade musical intitulada Chorinho na Praça, que não explorou um aspecto relevante daquela situação: o show de chorinho estava oficializado através de condições técnicas que garantiam certos privilégios, como palco, iluminação cênica, caixas de som profissionais, microfones, operadores técnicos e etc, configurando assim um tipo de autorização oficial para acontecer, enquanto, no outro canto da praça, a roda de funk, que contava com um número expressivamente maior de participantes, acontecia de forma independente, com uma caixa de som trazida pelos próprios ouvintes e sem qualquer tipo de atenção e condição favorável oferecida pelo poder público.
Naquela noite, existia uma arte autorizada e uma arte desautorizada, e isso traz perguntas importantes a se fazer: por que o funk, um fenômeno cultural que vem sendo estudado em todo o mundo, não foi acolhido e explorado a partir de diretrizes educacionais e culturais que contribuíssem para consolidar uma ponte com as “boas famílias” que ali passeiam, como citou a matéria? Esse 13 de maio poderia ter sido um impulso que ajudasse a cidade a identificar as formas de escravidão que ainda nos domina e nos impede de conseguirmos nos desvencilhar/emancipar da tirania das mídias que exploram o funk como sinônimo de tráfico e pobreza.
É necessário deixar claro que não se questiona aqui o excelente plano de ações culturais que tem sido desenvolvido pela atual gestão da Secretaria de Cultura, mas que se trata de uma contribuição para o seu aprimoramento.
Vale destacar ainda que não foi registrada na delegacia regional nenhuma ocorrência de violência associadas às terça-feira na Feira da Lua e, por isso, talvez tenha sido impreciso o uso do termo “rolezinhos” estampado na manchete da matéria do Gazeta, pois o termo está carregado de novos sentidos após os acontecimentos do primeiro semestre de 2014 que se espalharam pelo Brasil. Os “rolezinhos” são invasões de espaços privados que a mídia também estigmatizou como violentos. Mas o que se dá no caso da praça de eventos, não passa perto de um “rolezinho”.
No entanto, como a mídia tem poder, a matéria publicada mobilizou ações da polícia militar no local e, após uma semana, isto produziu um novo cenário na praça, transformando-a em um árido e vazio cenário destituído da diversidade pujante que o caracterizava. Neste novo cenário, os poucos jovens que lá insistem em circular precisam tomar cuidado com o boné que usam, com as roupas que vestem e com a música que escutam para não serem confundidos com o inimigo das “boas famílias”, pois quem agora atua com destaque nesta praça é a polícia e a figura do pregador evangélico, que durante a revista policial distribui folhetos e enuncia discursos de doutrinas cristãs. A aparente calma traz muita preocupação: o espaço público ordeiro e pacífico na sua diversidade passou a ser uma reserva para somente dois tipos de cidadãos – policiais e pregadores. E se nós não aprendemos a conviver na diversidade, estamos indo na contramão do melhor que o mundo nos oferece, com o risco de nos fecharmos em guetos nos quais ficamos ouvindo apenas as nossas próprias vozes e ignorando a existência do outro.
Mas o mais grave, é que como se sabe, o tráfico não tem localização geográfica na sociedade, pois se infiltra em todas as camadas, sendo hoje um problema econômico-politico-cultural-educacional-social, sendo assim “higienizar” a praça de eventos não resolve esta questão, apenas a tira do nosso campo de visibilidade. Isso pode até ser conveniente porque produz uma sensação (que é falsa) de segurança e harmonia urbana. O desaparecimento do tráfico é tão falso quanto o coelho que desaparece na cartola do mágico. Pura ilusão de ótica.
Empurrar para as bordas aquilo que nos incomoda só contribui para a manutenção das doenças sociais que atacam a saúde cidadã. É preciso olhar para os fenômenos, reconhecer seus sintomas e entender que sua possível cura parece não estar nos “remédios” que temos usado, pois eles não têm funcionado como esperávamos. Talvez a direção a tomar seja a de buscar enfrentar as situações que os têm produzido. Quem sabe não seja o investimento na educação e na cultura a longo prazo o que modificará essas realidades, ao invés da realização eventual de operações policiais? 


Thiago Alixandre é bailarino profissional, co-fundador do Coletivo O¹²,  produtor cultural, crítico de dança e graduando em filosofia. Integra ainda o CED (centro de estudos em dança da PUC-SP).
email: contato@coletivoo12.com.br

 

publicado na edição n° 72 de 14 a 20 de junho de 2014 do Jornal Gazeta de Votorantim, na página 06







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