04/09/2017 - 15:35
Igreja e Maçonaria


“Longe de nós servirmos e abandonarmos o Senhor, para servirmos a deuses estranhos” (Js 24, 16). Isso é um tema árduo que implica história, política e diálogo na atualidade. Do ponto de vista romano já sabemos a posição de condenação que provém desde o Papa Clemente XII (1738), Leão XIII (1884) e outros até os nossos dias.

Os maçons eram os pedreiros franceses católicos que voluntariamente construíam as igrejas e conventos em toda a Europa e tinham o apoio de todos os clérigos. Com a criação e independência das Lojas, tal relação tornou-se acirrada, pois os clérigos não tinham o domínio nem econômico e nem de autoridade sobre as mesmas. Há muitos maçons católicos que vivem na marginalidade não podendo comungar e também muitos clérigos e prelados que participam da maçonaria.

A Maçonaria é condenada por relativismo e contrária a doutrina moral da Igreja de Roma, mas tal relação é estranha e contraditória. Não podemos esquecer toda a obra dos maçons em prol da mesma Igreja durante os séculos e que ainda perduram em tantas ações sociais usufruídas por tantos católicos e outros. De fato, a mesma possui um caráter ecumênico e filantrópico. Muitos tabus e preconceitos foram criados com o teor de “seita secreta” ou contrária ao cristianismo.

Condenamos os maçons – mas usamos de suas creches para nossos filhos e filhas; Condenamos os maçons – mas usamos de seus hospitais para nossos enfermos; Condenamos os maçons – mas usamos de seus asilos para nossos idosos abandonados; Condenamos os maçons – mas usamos de suas universidades para nossa educação; Condenamos os maçons – mas nos convêm seus conventos, paróquias e mosteiros cedidos ou doados aos nossos religiosos e clérigos. Preserva-se o caráter de uma condenação histórica, mas a própria história mostra o retrocesso das ideias e a grande necessidade do diálogo e da fraternidade principalmente entre aqueles batizados e que não podem ser marginalizados.

Na Igreja Anglicana, apesar das divergências internas o Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra em 1987, tratou o tema: “Freemasonry and Christianity: Are they compatible?” (“Maçonaria e Cristianismo: São eles compatíveis?”) – Tais questões desde tal Sínodo caminham em diálogo aberto e não sob um caráter de condenação exclusão. Isso é cômodo para as autoridades eclesiásticas e como normativa geral aos seus fiéis.

O Arcebispo de Canterbury (Inglaterra), Geoffrey Firsher (1945-1961), empenhou-se em revisar o Direito Canônico da Igreja da Inglaterra. Os cânones de 1604 ainda estavam em vigor. É recordado pela sua visita ao Papa João XXIII em 1960 o primeiro encontro entre o Arcebispo Primaz Anglicano e um Papa desde a Reforma Inglesa (1558) num rito ecumênico. Fisher foi um bom maçom comprometido com a causa e muitos bispos da Igreja da Inglaterra em seu período foram também membros da Maçonaria. Ele foi capelão Mor da Grande Loja Unida da Inglaterra. Em nossa Igreja todos os batizados maçons sejam bem-vindos e podem aceder aos sacramentos.

Abandonemos a hipocrisia e lutemos mesmo entre as diferenças pela unidade que provém da graça do Evangelho. “Não há mais que um legislador e um juiz: aquele que pode salvar e perder. Mas quem és tu, que julgas o teu próximo” (Tg 4, 12).

Dom Theodoro
Bispo Diocesano/Diocesan Bishop
www.anglicandiocese.com.br

 

Coluna publicada na página 11 da edição 234 da Gazeta de Votorantim de 02 a 08 de setembro de 2017







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