01/01/2018 - 21:22
O MENINO QUE SUMIU NO REVELION...


 

Era duas sirenes tocando juntas na virada do ano, em um tempo em que não havia TV colorida, contagem regressiva, mesmo que o relógio despertador marcasse Meia Noite Cravado, ninguém se manifestava enquanto não soasse as duas sirenes, a da Votorantim e a da Metidiéri, anunciando a virada do ano.

Era um apito de Festa, de comemoração, diferente daquele da rotineira entrada e saída de operários. Só depois é que começavam a espocar os primeiros rojões, e as pessoas trocavam os primeiros abraços. Primeiro em família, depois saiam á rua, onde  as casas ficavam abertas e a ceia era partilhada festivamente, e se a gente não entrasse, o Dono da casa ficava ofendido, a mesa estava posta para todos.

Lembro-me da virada de 62 para 63, quando morávamos na esquina das ruas Tarcísio Nascimento e Albertina Nascimento. Depois da comilança, as crianças foram para a esquina brincar, mas eu preferi escutar os “causos” dos adultos, e a nossa vizinha Dona Nena, ao ver que eu estava por perto, falou da “Máe Dágua” que vinha a tona do rio e arrastava meninos para o fundo, e também do Jacaré de 5 metros, cujo rabo ficava do outro lado do rio, e a bocarra perto da nossa cerca. Quando minha mãe caiu na risada, falei bem alto “Pois eu não tenho medo!” E me afastei dali muito bravo.

Tinha ouvido falar, que um dos vizinhos, estava servindo “Ponche” e que era uma delícia, sai furtivamente da vista dos adultos e fui entrando na cozinha.. Era um grande caldeirão cheio até a boca.  Falei que era para o meu pai e logo alguém me encheu o copo com uma concha. Mal sai dali  me deliciei com a bebida que era vinho doce com pedaços de frutas  e que, fazendo efeito, de uma hora para outra me deixou valente e corajoso. Varando as escondidas, pulei a cerca, do fundo do quintal, na escuridão, entrando  no Bambuzal da beira do rio, que era a área proibida.

Queria porque queria ver a tal de “Mãe Dágua” e o Jacaré de 5 metros.  E do meio do bambuzal, eu batia no peito e dizia com raiva : “Venha Mãe Dágua, venha Sêo Jacaré do rabo grande! Hoje eu pego vocês, num tenho um pingo de medo!”  Dizia, meio tonto, e com as pernas franzinas bambeando.

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Nessas lembranças, ainda sinto o traseiro em “brasa” ,da surra de cinta que tomei  do meu pai, ao encontrar-me no amanhecer, deitado em baixo do puleiro da Galinhada, ainda meio “mamado”, após uma  busca desesperada, que  mobilizara toda a vizinhança. E ao ouvirem os meus berros, algumas beatas erguiam o rosário para o céu, exclamando “Graças a Deus e a Virgem Maria, acharam o menino!”


 José da Cruz é diácono e comunicador

E-mail: jotacruz3051@gmail.com

 

 







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