02/04/2018 - 10:48
No palco, uma nova geração de alunos


O grande avanço alcançado na educação, nas últimas décadas, foi a expansão das oportunidades para ingresso na Educação Básica, antes destinadas prioritariamente a uma elite. Mas a universalização foi feita nos mesmos padrões de ensino do passado, como se todos os atualmente matriculados tivessem as mesmas condições de vida, a mesma estrutura familiar e o mesmo acesso a bens culturais dos alunos de outros tempos.

Nesse contexto, para qualquer processo de melhoria da educação, é prioritário saber mais sobre o seu principal ator, o aluno. Quem é ele hoje? O que ele quer? Quais são seus sonhos e sua realidade?

Para conhecer mais sobre o aluno, há várias pesquisas disponíveis, entre elas a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) realizada - nos anos de 2009, 2012 e 2015 – em uma parceria entre o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Ministério da Saúde, com o apoio do Ministério da Educação. Tal pesquisa levantou informações junto a uma amostra de escolares do 9º ano do Ensino Fundamental. A seguir, são apresentados alguns resultados de 2015, referentes aos alunos do Estado de São Paulo.

O apoio (ou a falta de apoio) da família – Em relação à família, 61,6% dos escolares moram com pai e mãe, mas é também expressivo o percentual dos que moram apenas com a mãe (30,7%). Com relação aos demais, 4,1% moram só com o pai e 3,6%, nem com a mãe nem com o pai.

Ao levarem em conta os trinta dias anteriores à pesquisa, 71,9% dos meninos e 61,7% das meninas responderam que os pais entenderam seus problemas e suas preocupações. Ou seja, os pais de quase 40% das meninas não entenderam suas dificuldades, o que pode ser um primeiro indício da sensação ou situação de falta de apoio nas decisões a serem tomadas no dia a dia.

A solidão – Levando em consideração os doze meses anteriores à pesquisa, 24% das meninas (mais que o dobro dos 11,3% dos meninos) se sentiam sozinhas “na maioria das vezes ou sempre”. Elas também, em percentual (15,6%) bem maior que os meninos (7,2%), perderam o sono devido a preocupações.

A violência – Vários indicadores revelam que os adolescentes vivem situações de constrangimento físico ou moral no seu cotidiano. Nesse sentido, ao considerarem apenas os trinta dias anteriores à pesquisa, 15,4% dos escolares foram agredidos fisicamente por um adulto da família. Ainda nesse período, escolares afirmaram que não compareceram à escola por falta de segurança no trajeto casa-escola (12,6%) ou por falta de segurança na escola (10,9%). Também, 9,0% afirmaram que, “na maior parte do tempo ou sempre”, se sentiram humilhados por provocações de colegas da escola.

Numa situação de extrema violência, 3,8% revelaram que foram forçados a ter relação sexual alguma vez na vida. Quando perguntados sobre quem forçou a relação sexual, a maior parte dos escolares indicou pessoas conhecidas e muito próximas (namorado(a)/ex-namorado(a), amigo(a), pai/mãe/padrasto/madrasta ou outros familiares).

Uso de drogas e bebidas – Ao considerarem os trinta dias anteriores à pesquisa, 24,9% dos escolares responderam ter consumido bebidas alcoólicas em pelo menos um dia. Nesse mesmo período, 6,4% dos escolares usaram drogas ilícitas. Quando foi perguntado se tinham amigos que usam drogas, 22,5% responderam “sim”, percentual esse maior que o registrado em âmbito nacional (17,6%).

Ao se levar em conta apenas esses indicadores (a pesquisa apresenta muitos outros), pode-se constatar que são muitos os adolescentes que sofrem solidão, que não têm apoio da família, que convivem com situações de violência. Há adolescentes, inclusive, que chegam — em casos extremos — a buscar fuga em drogas e bebidas.

Falta em todo o país um olhar atento aos nossos alunos para traçar caminhos para acolhimento de cada um em nossas escolas. É essencial que os formuladores de planos de educação, leis e normas conheçam os perfis da criança, do adolescente e do jovem, para criar políticas flexíveis que permitam adequar diretrizes gerais à realidade de cada comunidade escolar.

Cada escola deve ser considerada única. É preciso identificar os problemas da sua clientela, planejar estratégias para solução do maior número deles e subsidiar continuamente a atuação do professor na interação com a nova geração. Somente assim será possível criar as condições para que cada aluno possa aprender e aplicar conhecimentos, desenvolver habilidades e assumir atitudes, como indivíduo e como ser social. Enfim, a escola poderá formar pessoas para a vida e para o trabalho.

 


Coluna publicada na página 09 da edição 261 da Gazeta de Votorantim de 30 de março a 06 de abril de 2018







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