12/07/2014 - 19:53
Um silêncio que tem ecos

Crítica


Colônia Penal o trabalho da Cia Carne Agonizante (SP), esteve no Teatro Municipal Francisco Beranger em Votorantim no dia 05/06, nos ajudando a lembrar que alguns aniversários históricos não se celebram, mas merecem de algum modo serem lembrados.   

 

O golpe militar brasileiro completou em 2014, 50 anos. Essa é uma data que não se tem orgulho em comemorar, mas vergonha em se lembrar, no entanto é preciso não se esquecer e mantê-la a luz da memória, do discurso, do pensamento crítico e também a luz do palco como fazem os bailarinos da Cia dirigida por Sandro Borelli quando dançam uma espécie de jantar agônico, onde o prato principal é um corpo que vai sendo preparado através de mecanismos de tortura, até seu esgotamento que o transforma em carne pura, sem voz, sem olhar, sem desejo, apenas agonia em carne crua.

 

Na cena uma mesa farta, com muita comida e bebida onde os intérpretes vestidos de terno e gravata se comportam como glutões. Ao mesmo tempo que comem e bebem não deixam de falar. O ato de falar em voz alta é justamente o oposto do que podia um corpo capturado pelo regime militar, porque num sistema de censura justamente algumas vozes são silenciadas. Então nesse cenário surge em cena um corpo em silencio, magro, quase nu, inexpressivo e com roupas puídas, com características que lembram traços indígenas e com esse tipo de corpo os algozes-glutões iniciam rituais cíclicos de tortura.

 

As coreografias com gestos agressivos, vão fazendo do palco um porão de tortura onde ao mesmo tempo que se fartam de comer, beber e falar, os torturadores, um por vez, parecem consumir de sobremesa o ato de torturar aquele corpo que não come, não bebe e se mantem em silêncio.   

 

Mesmo tendo elegido uma dramaturgia teatralizada para estruturar este trabalho Sandro Borelli mantém o assunto no corpo em movimento através de duetos que vão se mostrando como mecanismos torturantes.

 

O único corpo solista é o corpo sem voz, que por vezes sola continuando automaticamente os gestos que foram manipulados pelos torturadores, fazendo parecer um corpo movido por um tipo de síndrome de Estocolmo, onde reproduz com certo afeto e gratidão ao toque corporal daqueles que o violentaram, fazendo compreender que o silencio daquele que ali dança, diz mais do que a voz dos que ali falam.

 

Sandro Borelli consegue tratar do assunto provando que a dança é uma disciplina apropriada para lidar com essa matéria, pois o trabalho contribui na compreensão de que é no corpo onde a ditadura se deu e é no corpo onde continua se dando formas outras de ditadura, controle e poder.

 

Vale destacar a figura cênica de um manequim que, do início ao fim do trabalho se mantem sentado a mesa, inanimado, quieto, silencioso, como um fantasma que assombra pela ausência de voz, expressão, gesto e movimento. Essa parece ser uma boa síntese da ditadura após esses 50 anos, um fantasma que assombra através do silêncio, que não ganha o centro da cena, mas permanece como parte dela.

O trabalho é encerrado com uma clara e potente citação da música de Chico Buarque, quando espontaneamente o corpo cansado de ser torturado se despe de roupas e vida qualificada se prostrando nu sobre a mesa para ser enfim devorado, mas os glutões saciados fazem apenas derramar sobre seu corpo um “cale-se! de vinho tinto de sangue”.

 

Sendo Votorantim uma cidade onde no centro dela sua Av. principal se chama 31 de março, fica claro a importância e o quão bem vindos são trabalhos que nos ajudam a reconhecer nossos fantasmas, onde ganham volume as vozes que foram inaudíveis por tanto tempo e ganha corpo o que por vezes sobrevive apenas como espectro.

 

Não é só a dança que está aproveitando o meio século do golpe militar para inspirar manifestos artísticos, para quem se interessar vale ver o que Maria de Medeiros fez recentemente no cinema documental com o importante Repare Bem (2012).

 

A fricção entre arte e política felizmente tem se mostrado vigorosa e isso sim merece celebração.  

 


Thiago Alixandre é bailarino profissional, co-fundador do Coletivo O¹²,  produtor cultural, crítico de dança e graduando em filosofia. Integra ainda o CED (centro de estudos em dança da PUC-SP).
email: contato@coletivoo12.com.br







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