26/08/2014 - 17:40
Tourada com a dança

Em Estudo para Lugar Nenhum, Vera Sala parece estudar como se perder dos caminhos e lugares habituais da dança. Com este esforço, acaba chegando em alguns certos lugares e nos transportando a eles. Enquanto se perde deles, se encontra neste “lugar nenhum” - que se mostra como um tipo de lugar que só pode ainda ser chamado assim porque é, por ora, pouco habitado, parecendo, então, lugar quase nenhum e pra quase ninguém.

O atual estágio de sua pesquisa continuada em dança parece estudar gestos que servem apenas para ser gestos. Não “apenas”, mas para serem plenamente gestos. Para uma percepção menos arguta no exercício de ver dança, estes “puros gestos” podem parecer nunca se completar, ou seja, não acontecerem de fato como uma dança, muito provavelmente porque nossos hábitos perceptivos estejam treinados para identificar como gesto realizado, somente aquele que se faz com o propósito de comunicar uma outra coisa que não ele mesmo.

Parece haver neste trabalho um esforço em estudar como a dança pode existir para explorar a si mesma e não somente para ser suporte de metáforas e símbolos. Nele, a dança não aparece como canal, mas como fonte. Fonte que jorra e que se alimenta desse jorro num exercício cíclico de retroalimentação e autoprodução.   

Cambaleando como uma toureira ferida que abandona a imponência dos gestos eretos para se esquivar da tirania aguda que fere a dança, condenando-a em “ser para” ao invés de apenas sê-la; Vera Sala, nesses gestos insistentes, vai configurando no espaço escuro uma sensação de vaguidão, parecendo viver uma tourada com o vazio. Mas logo essa vaguidão e esse vazio deixam de ser responsabilidade exclusiva da cena e passam a responsabilizar também quem a assiste.

Em geral, o público parece ser engolfado pelas obras artísticas e se esquece de sua presença nelas, mas esse trabalho não permite tal esquecimento. Fica dito que o público não está fora da experiência como um mero receptor, e sim, misturado, imbricado na experiência como um participante ativo dela.

Com uma espécie de tauromaquia dramatúrgica, o trabalho vai driblando também o entendimento de luz e cenário. Isso se revela na inteligente iluminação e arquitetura proposta por Hideki Matsuka, que ergue paredes de luz e vidro para mediar a dança com o seu espectador. Entre o espectador e a cena há paredes de vidro, o mesmo vidro que parece proteger/isolar é o mesmo que permite, com sua transparência, penetrar profundamente na cena. Neste arranjo há uma bela demonstração de como a luz pode também ser arquitetada, e isso fica claro quando os fachos de luz incidem não só na cena, mas também sobre a plateia, carregando suas imagens para dentro da cena através de seu reflexo no vidro que, combinado com a luz, se torna então espelho.

Essa parede de vidro se comporta como um mediador de propriedades ambivalentes, que ora opera com sua transparência ora com seu reflexo, produzindo uma mediação também ambivalente. Nem sempre nos lembramos que o estado físico do vidro é líquido, que mesmo com alto grau de viscosidade suas moléculas não se comportam de modo estável, e como ele demora séculos para escorrer, o olho não pode acompanhar essa transformação.

É nesse sentido que parece haver uma combinação ambivalente e instigante que atravessa toda a proposta deste trabalho, que pode ser percebida na mistura dos gestos lentos e ágeis, na música de Bach que aparece e some, no vidro líquido-sólido arquitetado com essas paredes de escuro e luz que se erguem e caem, e que vão misturando a lentidão do vidro que derrama com a enorme velocidade da luz que o atravessa, luz que rapta nossa imagem para dentro da cena produzindo uma espécie de mergulho físico nela.   

Essa elaborada composição de lentidão, velocidade, transparência, reflexo, escuro, iluminado, sólido, líquido, silêncio, som, vazio e preenchimento vão confundindo a nossa percepção, nos permitindo duvidar se no reflexo somos nós, o público que entra na cena, ou se a cena é que invade a plateia, ou ainda, se há uma terceira possibilidade – a de não haver dois lugares, um para ir e um para estar, mas um outro lugar que é mediado por esse entre, um lugar que talvez ainda não tenhamos dado nome e por isso o mantemos sob o batismo de nenhum.

 

Serviço:

até 07/09 – instalação aberta ao público segunda a sexta das 15h as 18h

As quintas e sextas  – Estudo Para Lugar Nenhum as 20h30

End: Praça Victor Civita

R: Sumidouro 580 (próximo ao metrô pinheiros)

Na cidade de São Paulo.

Grátis.

 

 


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