25/09/2019 - 23:25
Recordações edição nº335

 

 

Lanzudo, uma figura folclórica e sua estranha coleção de lembranças


 Professor Jesus Rodrigues

 

Durante os seus 62 anos, Laurentino de Moraes conservava um estranho costume. Era um colecionador de lembranças das missas de 7° dia. Guardava consigo, num saco plástico, as lembranças das pessoas que ele amava e que realmente deixou-lhe saudades.

Lanzudo, como era conhecido de todos na vida em comum, adquiriu esse estranho habito há mais de trinta anos. Uma mania que era desconhecida na cidade, pois sempre foi conhecido por não usar calçados, aliás, durante mais de quarenta anos, por não usar calçados, seus pés nunca souberam o que era calçar. Na sua inusitada coleção encontravam-se as mais variadas pessoas que lhe foram uteis vida. Guardava a lembrança da missa de Felisberto de Freitas (Mestre da Fábrica) ocorrida em 05 de setembro de 1952, porque trabalhou com ele e se estimavam mutuamente. De igual forma, manuseava a recordação do Dr. Heitor Avino (20/01/1957), dizendo da bondade desse notável médico que o curo sem cobrar nada.

A cada um que vai folheando, tece um comentário. Destilava elogios a Roberto Bertoni, com quem trabalhou. Mostra a pequena foto de Antônio Prado Junior (Pradinho), seu barbeiro, com a frase "Esse era bom demais para mim".

Referindo-se ao impresso com o nome de Antônio Festa, que faleceu em 08/08/1948, ele falava com a voz carregada de tristeza, pois com esse tinha muita afinidade. Costumava parar no açougue deste último e ajudar estraçalhar as carnes para venda. Indagado se costumava guardar as lembranças de amigos, limitou-se a contestar, afirmando: Eu guardo de todos porque não tenho inimigos nesta terra. Assim era Lanzudo.

Quando não podia participar da missa, pedia para a família que lhe fornecessem uma lembrança. Usava uma maneira diferente de mostrar gratidão as pessoas que fizeram parte de seu pequeno mundo na cidade.

Vivia de pequenas ajudas, prestando serviços esporádicos. Não era um empregado cercado de garantias. Não sabia ler, nem escrever e vivia alheio ao mundo que o cercava. Para ele, a realidade não se resumia em notícias factuais, mas no que os outros lhe contavam.

Viveu com os vivos, lembrando os mortos. Convivia na comunidade com sua humildade, sem agir de má fé com qualquer que fosse. Não foi só um numero a mais no senso. Laurentino de Moraes, o saudoso Lanzudo, foi um humano agindo como tal, a sua humilde maneira.

 

 

 







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