13/10/2014 - 11:01
Cisne Negro se equilibra no percurso mas tropeça nas escolhas

Mantendo o mesmo discurso na forma de dança desde quando nasceu, em 1977, a Cisne Negro Cia de Dança mostrou, no último dia 30/09, três obras de seu repertório no Teatro Municipal Francisco Beranger, em Votorantim. 
O discurso promete trazer uma dança de tradição e beleza. Beleza e tradição são entendidos como as características necessárias para formar novos públicos. Para isso, o trabalho da cia, de fato, contribui, pois se dedica a conservar hábitos de entendimento tanto de beleza quanto de tradição que parecem ser os mais disseminados.
Vale refletir sobre ambos. Tradição combina com a ação de preservar sem transformação. Mas quando se pensa em tradição, pode-se também lembrar daquilo que a mantém, ou seja, a permanência. Como se sabe, para que algo consiga permanecer, precisa se adaptar e, para se adaptar, alguma transformação ocorrerá. Já a beleza é, em geral, entendida pelo viés daquilo que tem forma harmônica. Viés tão relativo quanto duvidoso.
Para lidar com o cardápio servido pela Cisne Negro Cia de Dança, as ponderações sobre tradição, beleza e público são necessárias. O programa, composto por Revoada (2007), Sr. Margareth (2013) e Trama (2001), parece ter sido montado com o intuito de atender a um tipo de diversidade de interesse do público, como habitualmente procedem as cias de repertório. A reunião dessas obras, uma proposta de Hulda Bittencourt, diretora artística da cia, tem como objetivo alargar o público de dança, mas compromete o desempenho dos bailarinos.
Das obras apresentadas, é em Trama, do coreógrafo brasileiro Rui Moreira, que a cia demonstra competência e domínio técnico através de sua familiaridade com aqueles movimentos; já em Revoada, do francês Gigi Caciuleanu, a imprecisão das sequências e falta de acabamento na finalização dos gestos fazem os bailarinos ao invés de dançar, tomar conta de executar passos; mas é em Sr. Margareth, do americano Barak Marshall, que o elenco se expõe de modo arriscado. Nesta coreografia, a teatralidade é central, convocando competências específicas do trabalho de ator, e o que se vê são bailarinos tentando atuar.
Deve-se atentar para o modo de existir da cia.  Não tendo um coreógrafo fixo, é forçada a encomendar obras a diversos criadores, mesma situação na qual se encontram outras companhias de perfil semelhante. E as consequências artísticas são também comuns: há necessidade de um mesmo elenco dar conta de propostas artísticas bem diferentes. No caso do Cisne Negro, nem o visível esforço do juvenil elenco é suficiente para atender as exigências técnicas específicas de cada obra.  A falha não é deste elenco, pois não há corpo que se especialize em um tipo de treinamento (seja qual for) e não leve esse jeito de dançar para as coreografias que aprende. Como o corpo é a coleção das informações que ele pratica, não existe possibilidade de se fazer um gesto sem que nele apareça a qualidade da prática mais treinada pelo corpo.
A Cisne Negro Cia de Dança completa em 2014 admiráveis 37 anos de carreira, com uma relevante trajetória. Já se apresentou em 17 países e contabiliza cerca de 4 mil apresentações. Sua militância pela dança no pais e a resistência como grupo independente são méritos importantes de serem reconhecidos, pois podem ensinar e inspirar outras inciativas.
Sua insistência em trabalhar no viés que escolheu é legítima e garante o indispensável espaço para a diversidade. Mas são justamente a sua legitimidade e seus méritos históricos que pedem um ajuste mais fino na programação de seu extenso repertório.

Thiago Alixandre é bailarino profissional, co-fundador do Coletivo O¹²,  produtor cultural, crítico de dança e graduando em filosofia. Integra ainda o CED (centro de estudos em dança da PUC-SP).
email: contato@coletivoo12.com.br

 


publicado na edição n° 89 de 11 a 17 de outubro de 2014 do Jornal Gazeta de Votorantim, na página 06







Deixe seu Comentário

Newsletter
Cadastre seu email e receba nossos informativos e promoções de nossos parceiros.