23/12/2014 - 22:15
Mostra CorpoChaos, fortalece cena regional.

Crítica de dança


Teve início no dia 2/11 a primeira edição da mostra sorocabana CorpoChaos e se estendeu até o último sábado 13/12. Realizada pela Secretaria de Cultura da cidade de Sorocaba através da Linc (lei de incentivo a cultura), as ações da mostra ocorreram em dois locais. As apresentações, exibições de vídeos, vivências e sessões de improviso ocorreram nos finais de semana no Barracão Cultural e sua conversa de abertura ocorreu no espaço Trupé de Teatro. 

A mostra trouxe um frescor importante para a cena regional, fortalecendo o cenário e enriquecendo sua diversidade. Iniciativas como esta merecem continuidade para que seja estimulada e valorizada a produção local.


Três artistas foram os proponentes realizadores desta iniciativa, o votorantinense Douglas Emilio com Mais ou Menos Assim, e as sorocabanas Evelyn De Marchi com Memórias e Sonhos de Uma Vida Inesperada e Melany Kern com Coratio. 


Em Mais ou Menos Assim Douglas Emilio demonstra competência nas habilidades como intérprete e elege materiais interessantes e ricos corporalmente para trabalhar na cena, mas é nos pesos dramatúrgicos e nos acentos coreográficos onde precisará de mais atenção, pois a riqueza das matérias eleitas ainda não se mostram equivalentes ao modo de dispô-las no tempo e no espaço cênico. Fica a impressão que há três momentos distintos no trabalho, onde cada qual independe um do outro, todavia como isso não se transforma num assunto, permite então a leitura de que seja apenas uma incoerência lógica na organização. Há uma maneira teatral de lidar com o entendimento do corpo que dança, que fica explícita quando o corpo representa um cansaço que ainda não apareceu no seu estado muscular, cansaço que parece surgir como um recurso importado para manter o timing da cena. Estes são ajustes que podem vir com o amadurecimento, por isso é importante que haja condições de continuidade para trabalhos como esse, que merecem espaços para seu crescimento e florescimento. 


Já em Coratio, Melany Kern se destaca quando usa da coerência para ponderar a sua proposta, pois avisa generosamente ao público que trata-se de um Work in process, ou seja, não cabe cobrar o que se poderia caso estivesse apresentando uma obra. Cuida ainda de nos contar que não há uma clara classificação do que mostrará, pois compreende que há misturas estéticas no seu corpo, por isso não promete uma classificação única e apresenta o que chama de pelo menos duas coisas, sua performance/dança. Pra quem teve o privilégio de vê-la pode compreender a potência de uma intérprete que sabe o que fazer com o seu corpo num espaço vazio e transformar a cena num conjunto de complexidades poéticas exploradas com maestria. Nela, tudo impressiona, em especial a maturidade que faz do seu comedimento uma espécie de triunfo dramatúrgico. O domínio de timing, acentos, nuances e seus sutis improvisos criativos vão arquitetando uma beleza que se constrói no entorno de cada um que a assiste, como uma redoma “afetivopoética” que seu coração performa e transborda na cena inundando sua plateia. A sensação de vê-la é a de uma grata surpresa que impacta o nosso corpo, o transformando num espaço de ouvir os ecos de seu trabalho por muito tempo.   

  

Conforme prometia o programa gráfico, a mostra teve como compromisso apresentar ao público modos distintos das ideias se organizarem no corpo do artista, ficando na responsabilidade de Douglas Emílio mostrar um trabalho de dança contemporânea, a tarefa de Evelyn De Marchi foi realizar teatro físico e a de Melany Kern um trabalho de performance/dança. 


Para quem acompanhou a mostra pôde conferir que este tipo de exercício fica inviável, tanto para o artista quanto para o público, porque a certa altura tudo se mistura, impossibilitando o reconhecimento das fronteiras estéticas. Neste mundo onde as contaminações são tão ligeiramente atravessadas no corpo, fazendo borrar tais fronteiras, através das inúmeras misturas ao qual estamos expostos, vale perguntar: Afim de que voltaríamos a buscar essa departamentalização nas formas de fazer arte? Onde este interesse nos levaria?  


Talvez mereça atenção este tipo de interesse classificatório quando ele aparece como um traço sintomático que norteia uma proposta cultural, pois ele parece ser mais uma exigência mercadológica do que exatamente uma preocupação artística. Já reparou que quando um artista consolidado e legitimado mercadologicamente se utiliza de diversos recursos estéticos para realizar suas obras, ele não precisa dar explicações e nem classificar sua produção? Quando Caetano Veloso mistura diversas propostas estéticas musicais, ninguém se pergunta que tipo de música é aquela, pois basta dizer que aquela é uma música de Caetano. 


Talvez valha a pena ficar em alerta com essa obediência mercadológica a qual nos disciplinamos e nos perguntar a fim de que mesmo, isso se faz necessário, quando o objetivo é artístico. 







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