26/02/2015 - 15:34
Que tal falar sobre sexo?


Imagine uma reunião ocasional de uma família tradicional. Todos a comentar banalidades, até que o adolescente diz, fora de contexto, a palavra proibida: sexo! Não é difícil imaginar as cenas seguintes. Os mais velhos arregalariam os olhos. A mãe, envergonhada, repreenderia: “O que é isso, garoto!?”. O pai, entre a moral e o orgulho machista, se calaria. Já os primos, se alternariam entre a zoeira e os risos sorrateiros de meia boca. Nenhuma palavra a mais, vira-se a página e passa-se ao próximo assunto... A oportunidade ideal para tratar sobre um dos tabus mais venenosos da atualidade é desperdiçada.
Vigora em nosso tempo o pleno funcionamento de um mecanismo humanamente perverso. Enquanto, por um lado, as propagandas mercadológicas e as programações televisivas incentivam o sexo, por outro, a moral religiosa o reprime, tendo o medo milenar do fogo do inferno a tiracolo. O resultado não poderia ser diferente: nega-se a falar abertamente sobre o assunto na segurança do ambiente familiar, enquanto bordeis e práticas abortivas se multiplicam no submundo social. Sem contar os casos de estupro, pedofilia...
No entanto, nem é preciso chegar a essas consequências mais extremas para diagnosticar o quão patológico é tal mecanismo de estímulo e repressão do segundo degrau da Escala de Maslow. Basta verificar na internet o incalculável número de sites voltados à demanda de viciados em pornografia para se ter uma ideia. Não se trata, aqui, de se querer limitar o que o indivíduo pode ou não optar como lazer pessoal, mas, sim, sublinhar os efeitos prejudiciais do hábito, que atingem dimensões sociais.
Pesquisas recentes da área de psicologia comprovam que a pornografia “enfraquece” o córtex pré-frontal, área do cérebro humano responsável pelo ‘controle executivo’ das decisões pessoais. Isso significa que o consumo desse tipo de conteúdo, bastante usado para compensar as tensões sexuais reprimidas, deixa as pessoas mais impulsivas e infantis, menos aptas a tomarem decisões racionais para lidar com a vida prática. Para ilustrar as consequências potenciais desse tipo de vício, lembremos que as pessoas impulsivas, isto é, aquelas que não pensam antes de agir, estão mais propensas a tomarem atitudes perigosas, como a prática de crimes, por exemplo...
Não precisa ser assim. Está comprovado que o sexo, praticado com compromisso e afetividade, é capaz de ‘inundar’ o organismo humano com os neurotransmissores responsáveis por gerar bem-estar, saúde e equilíbrio. Aumenta a inteligência, a sensibilidade, a criatividade e o prazer de viver. Mas, enquanto o assunto for tratado como tabu, não haverá a naturalidade necessária para o surgimento de relacionamentos saudáveis a esse ponto. É hora de romper os tabus e passar a dar ao tema a dimensão inerentemente humana que lhe cabe.

 

Cássio Gonçalves é músico e jornalista







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