29/04/2015 - 15:24
Manoel Peres Sobrinho


Uma Visão Cristã do Trabalho

Manoel Peres Sobrinho*       

 

Treblinka foi o quarto campo de extermínio alemão onde judeus foram assassinados em câmaras de gás alimentadas por motores a explosão localizado nos arredores da cidade de Treblinka, na Polônia ocupada pelos alemães. Também foi o primeiro campo de morte alemão onde ocorreu a cremação dos cadáveres a fim de ocultar o número de pessoas mortas. Neste campo foi criado um sistema de trabalho (sonderkommando) onde os judeus eram incumbidos de receber os comboios que chegavam, conduzir os deportados para as câmaras de gás, retirar os cadáveres, extrair os dentes de ouro, e proceder a cremação.

No portão principal de outro campo de concentração, Auschwitz I, podia ser lida a frase em alemão: "Arbeit macht frei" ("O trabalho liberta"). A verdade, é que todas as pessoas que ali entraram, foram mortas – A. D.

O trabalho é uma necessidade humana, porém, a forma de fazê-lo depende muito da ideologia que vai dando suporte a isso, de sorte, que homens podem ser transformados em escravos para enriquecer os outros que detêem o poder e as riquezas nas mãos. O sistema neocapitalista privilegia muito essa filosofia, pois, só sobrevive, à custa do sangue daqueles que pode arrancar do melhor de suas vidas.

Mas nem sempre foi assim.

Como cristãos, entendemos que todas as coisas foram criadas por Deus e Ele as dirige com o Seu poder, sabedoria e graça. Assim, podemos dizer que o trabalho também foi uma criação do Senhor, pois foi Ele o primeiro a tomar iniciativa e fazer vir à realidade todas as coisas, e a partir daí, outros resultados podem ser observados.

O Trabalho é Uma Criação Divina

Gênesis 1:1 nos diz: No princípio, criou Deus os céus e a terra. Criar é trabalhar. Nos versículos a seguir encontramos o que Deus criou: a luz, o firmamento, a porção seca que é a Terra, e a porção do ajuntamento que é o Mar. Também a relva, as ervas. Criou o Sol e a Lua. Criou os peixes, as aves. Criou os animais domésticos, os répteis, como os animais selváticos. E, por fim, criou o homem e a mulher. No dia sétimo descansou.

As atividades de Deus são desenvolvidas com seu esforço intelectual, poder e vontade. De sorte que foi por sua voluntária expressão de vontade que essas coisas vieram à existência. Formou o Senhor Deus ao homem, e lhe soprou o fôlego da vida. Além, disso, plantou um jardim, no Éden, e pos nele, o homem, que ele mesmo havia criado. Com esse ato Deus deixa claro que nada pode vir à luz sem que alguém se disponha a exercer uma atividade criativa com objetivos expressos de algo conseguir. Foi assim no início de todas as coisas e assim será para sempre. E, havendo Deus terminado no dia sétimo  a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito – Gênesis 2:2.

O Trabalho é uma Ordem Divina aos Homens

Não trabalhar é pecar contra Deus, pecar contra si mesmo e pecar contra a sociedade em que vive. É viver à margem da vontade do Senhor. Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos e sê sábio – Provérbios 6:6. Porque em todo trabalho há proveito; meras palavras, porém, levam à penúria – Provérbios 14:23.

Após a criação do casal, o Senhor deu uma incumbência: tomou, pois, o Senhor Deus ao homem e o colocou no jardim do Éden para o cultivar e o guardar – Gênesis 2:15. Uma ordem de trabalho: cultivar e guardar. Essas duas palavras envolvem uma enorme série de atitudes que Adão deveria desenvolver para cumprir corretamentre  a vontade do Senhor. Deveria ser criativo, deveria ser diligente, deveria ser prestativo, deveria ser obediente, deveria ser pontual, cuidadoso, paciente, e ademais, deveria ser humilde, para saber ouvir as instruções do Seu Chefe.

Na Lei de Moisés, o Senhor faz aparecer um mandamento preioso e específico sobre o trabalho: Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra... porque em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há... – Êxodo 20:9,11. Uma curiosidade: a lei do trabalho veio antes do pecado, que só ocorreu no Capítulo 3 de Gênesis que relata a queda. Portanto, o que ocorre hoje com o trabalho é o peso da maldição de Deus sobre a desobediência, e não sobre a realidade do trabalho. O trabalho honesto e santo é sempre uma bênção do Senhor.

O Trabalho nos dá direito aos bens produzidos

A fome do trabalhador o faz trabalhar, porque a sua boca a isso o incita – Provérbios 16:26. E a fome do preguiçoso, o leva a quê? É o apóstolo Paulo quem responde e de uma forma bastate esclarecedora: se alguém não quer trabalhar, também que não coma – 2 Tessalonicenses 3:10. Por que assim? É evidente que aquelas pessoas que não querem fazer nada, por pura preguiça, sempre fazem alguma coisa: o pecado. Por estarem demasiadamente ociosas, têm tempo demais para o erro e a perversidade. Quando todos colaboram para um bem comum é necessário, por uma questão de isonomia, direitos iguais, que só eles participem. Por que, alguém que se nega a fazer o que é bom, o que é certo e o que todos precisam fazer, e não faz, tenha direito aos bens produzidos? Quando admitimos esse comportamento, estamos criando marginais, aproveitadores, e mais, essas pessoaas ficam mutiladas no caráter e no comportamento, e só dão dor de cabeça aos demais. Jesus deixa um excelente ensino para isso: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também – João 5:17.

Com o Trabalho Socorremos aos Necessitados

O cristão tem uma vocação de serviço, em que o próprio Senhor Jesus é exemplo maior: tal como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos – Mateus 20:28. Há aqueles que estão impedidos de trabalhar por doença, por idade, e outros, então, cabe aos cristãos que amam a Deus e ao seu próximo socorrê-los em suas necessidades e isso é bênção do Senhor. Paulo, o apóstolo, deixa um grande exemplo nesse sentido, e demonstra o quanto deixamos claro nosso amor a Deus e ao próximo quando assim agimos: Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventuirado é dar do que receber – Atos 20:35.

A alegria de ofertar aos necessitados, está em ser instrumento de misericórdia nas mãos de Deus; também, o fato de ter mais do que precisa, a ponto de poder ofertar aos outros; e, ainda, contar com a simpatia e gratidão daquelas pessoas, que não são outra coisa, senão, nossos irmãos em Cristo.

Somos uma Família e precisamos tomar conta uns dos outros. Pedro, o apóstolo, nos ensina: Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus – 1 Pedro 4:10.

(*O Autor é Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie).

 







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