18/05/2015 - 12:55
BENEDITA MARQUES, a poetisa da Rua Willian Snap


Na porta da casa onde eu moro/Tinha, um pezinho de flor.../O nome hoje, eu ignoro/Mas não esqueci, a sua cor...// Era roxinha cor da saudade/Saudade sempre, se tem.../Talvez, seja da mocidade/Que já se foi e jamais vem..//As suas folhas, eram tão verdes.../A bela cor da esperança/A esperança... jamais... se perde/E quem espera, sempre alcança – Benedita Marques, A morte da flor Roxinha.

Num desses cadernos simples de colegial, que a gente compra em supermercado ou em livraria, encontrei um verdadeiro tesouro poético-literário. Nada mais nada menos, do que 61 textos poéticos da autora Benedita Marques. De um puro lirismo agudo, a autora caminha livremente como uma maestrina experiente por diversos universos ficcionais, donde tira a sua verve poética como quem conhece muito bem o que escreve: a experiência de ter vivido uma longa jornada neste mundo.

Benedita Marques nasceu no dia 5 de novembro de 1908, em Piedade-SP, e faleceu no dia 1º de junho de 1999, em Votorantim-SP. Sua longa caminhada pela vida foi traduzida perfeita e intensamente no que deixou escrito. Tinha uma grande queda pelo ensino, tanto que, já no quinto ano escolar, alfabetizava adultos. Órfã de mãe, aos 10 anos, veio com a família para Votorantim e foi trabalhar na casa do Comendador Pereira Ignácio, quando este residia na Fazenda São Francisco. Casou-se, mãe de tempo integral, dedicou-se intensamente aos seus filhos Rubens, Nilse e Dilma. Adorava os netos e os bisnetos, para quem sempre escrevia poesias em seus aniversários.

A descoberta do acervo da autora vem confirmar uma tese que defendo, já há algum tempo: escrever é uma compulsão literária e não um hábito meramente intelectual.

Por que alguém se dá ao trabalho de escrever, sabendo-se de antemão que o que escreve pode não ir muito longe? A resposta dessa pergunta está no precioso trabalho da autora Benedita Marques, que como muitos, por aí, escreve porque ama escrever. Porque dentro de si há um verdadeiro fervilhar de emoções, de sentimentos que precisam ser transformados em letras. O escritor, nesse sentido, torna-se refém de sua própria obra. E, assim, confirma-se a tese já muito difundida de que a obra cria o autor, e não o contrário.

Como crente no Senhor Jesus, era membro da Igreja Presbiteriana de Votorantim, a da Avenida José Manoel da Conceição e certamente deve ter lido muitos dos trabalhos do poeta Lecy de Campos, que além de membro dessa Igreja, era também Presbítero. Por isso, nos seus trabalhos, podem ser encontrados textos com fundamentação cristã. Como no caso da poesia “A Primeira Mensagem Após a Ressurreição”, poema em 5 versos, baseado no texto evangélico de Lucas, capítulo 24. A sua forma de escrever tem todo um carinho intelectual. Diz-nos ela: “Bem de manhã antes de romper o dia/Santas mulheres, revestidas de coragem!/Foram ao túmulo, queriam ver Jesus.../Viram dois anjos que lhes deram esta mensagem!”

Com fundamentação bíblica, ainda tem outros textos, como o poema “Fica Conosco”, a segunda mensagem após a ressurreição, baseado também em Lucas 24. São 8 versos que começam assim: “Fica conosco, é tarde.../Está declinando o dia.../A noite já se aproxima/Fica em nossa companhia.” A intensidade de emoção impressa no texto é um verdadeiro convite a adoração.

Ler os trabalhos da autora é um verdadeiro presente da criatividade literária. Faz-nos crescer por dentro, amar mais a natureza, procurar uma vida de fé mais intensa, e acima de tudo, vislumbrar a felicidade nas coisas pequenas, corriqueiras, triviais, se podemos assim dizer.

A autora nos ensina, que mais do que a correria do dia a dia, devemos parar e refletir sobre o que já está posto ao nosso redor. Olhar todo esse universo com outros olhos, mais atentos, mais perscrutadores, mais desejosos de investigar e encontrar a sua essência, para depois sorver toda a sua dádiva.

A autora nos ensina, ainda, a receita de como ser feliz com o que já se tem, para dispor e usar com toda a liberdade: a vida em família, o lugar onde se vive, e a capacidade de pacientemente observar a sua natureza e essência.

(O Autor é Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade
Presbiteriana Mackenzie).







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