26/10/2015 - 16:12
Incêndio de grande proporção na indústria Metidieri
 Foto: Divulgação 

Em 1960 o mecânico ajustador Amilton dos Santos realizava um sonho desde criança, o de trabalhar na fábrica Metidieri e jogar no time que levava o mesmo nome. Por lá ficou 35 anos, sendo promovido a assessor técnico e saindo aposentado. Antes, estava empregado na fábrica de tecidos Votorantim, mas não resistiu a um convite do comendador Alfredo Metidieri.

Amilton estava vislumbrado. Para ele o Metidieri era o grande time do distrito e o Corinthinha, a equipe de maior popularidade, então trabalhando dentro da empresa do comendador e às vésperas do dérbi, o bate-papo era empolgante entre os funcionários.

Tudo corria bem, a fábrica produzindo em grande volume, não se imaginava que alguma coisa poderia fugir do controle e comprometer a sua estrutura. Mas no dia 4 de abril de 1968, na troca do segundo para o terceiro turno, por volta das 21h45, um incêndio no barracão central gerou a destruição do galpão e o maquinário.

“A empresa recebia o Rami ou misturas. O material bruto era encaminhado para o processamento nesse galpão central, que deixava os fios prontos para concluir a produção final. O fogo destruiu 5 cardas, 5 passadeiras, 24 penteadeiras, outras 5 passadeiras, 5 massaroqueiras e 8 filatórios (rinks), ao todo 52 máquinas” se recorda Amilton, que completa dizendo que esse setor funcionava em três turnos.

Foi um cenário de grande destruição. A fábrica contava com dois barracões, tendo o galpão central destruído e ao lado ficou ileso um segundo galpão que trabalhava fibras curtas e misturas diferentes para compor os tecidos. O número de funcionários era expressivo, só no setor de Fiação haviam 483 trabalhadores.

“Imagine o susto que tive no dia seguinte ao chegar à portaria, para o turno das 7 às 16 horas e receber a informação que ninguém podia entrar, por que o barracão central fora destruído e estava interditado. O comendador me viu e liberou a entrada, chorou e se mostrava muito triste. Percorreu comigo até a entrada do galpão e frisou que os trabalhadores estavam dispensados e ficassem em casa, até receber a ordem para retornar ao trabalho” destaca Amilton.

Foi um duro golpe para o empreendedor Alfredo Metidieri. A linha de maquinários era de origem francesa, tinha cinco anos de uso. O incêndio foi muito rápido. Os trabalhadores citaram que o início do curto circuito aconteceu nas máquinas cardas, que estavam posicionadas indevidamente num corredor e isso fez diminuir os espaços laterais entre elas, ajudando a impedir maior agilidade para tentar combater o fogo.

Apesar da turbulência, não houve motivação para a decadência da empresa. Era preciso reconstruir o que havia perdido, seriam longos meses num trabalho exaustivo para retomar a produção no mesmo ritmo de antes. Mas como garantir a continuidade do atendimento dos pedidos dos clientes e manter a marca dos produtos têxteis Metidieri em evidência?

“A alternativa ao comendador foi em pouco tempo arrendar uma empresa em Curitiba. Fui o primeiro a ir trabalhar no Paraná, na sequência encaminhada uma equipe. Foi uma forma de garantir o atendimento da produção e o fornecimento dos produtos aos clientes” comenta Amilton.
Enquanto isso em Votorantim, o galpão central era reconstruído. Demorou um ano para reformar algumas máquinas e o que não foi possível reaproveitar, coube nova aquisição. Depois de dois anos o barracão estava refeito e retomando a produção.

A empresa passou por esse momento difícil e prosseguiu acompanhando as tendências de mercado. Soube aproveitar os momentos de grande aceitação do mercado com a produção do linho, poliéster, o algodão com misturas de poliéster e viscose, entre outras misturas em geral. Enquanto o proprietário Alfredo Metidieri esteve a frente dos negócios tudo caminhou bem, mas começou a se ausentar quando assumiu a presidência da Federação Paulista de Futebol.

O funcionamento da indústria têxtil Metidieri marcou a vida de muitos que ali conseguiram o primeiro emprego e garantiu o sustento de muitas famílias. O agora aposentado Amilton dos Santos reforça que o ambiente de trabalho era saudável, graças ao patrão que era bondoso, refinado e trabalhou muito por Votorantim.

 

(Cesar Silva é jornalista formado pela Uniso, gestor público pós-graduado pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), membro da Academia Votorantinense de Letras, Artes e História e autor dos livros Nossa História Nossa Gente - volumes I e II)

 

Coluna publicada na página 17 da edição 141 da Gazeta de Votorantim de 24 a 30 de outubro de 2015







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