03/11/2015 - 12:04
O desafio de entregar cartas
 Foto: Divulgação 

A primeira porta à esquerda era a entrada dos Correios, na rua Lacerda Franco

Ao andarmos pelas ruas da Votorantim vemos boa parte das propriedades cercadas por muros e grades, mas não faz muito tempo que as moradias eram desprovidas de fechamento, muitas casas tinham no máximo uma pequena cerca de madeira. Era aí que entrava em cena o inimigo número um da canela dos carteiros, os cães, que conseguiam escapar ou mesmo pular essas cercas.

Além da maioria das residências não serem muradas, eram ainda desprovidas da caixinha coletora de cartas, mas a orientação ao carteiro era que colocasse as correspondências por baixo da porta. O resultado era que constantemente precisavam correr da ira de algum cão.

Antonio Fernando Pavia entrou no início dos anos 80 na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, ou simplesmente Correios. Ficou quinze anos trabalhando como carteiro e posteriormente no atendimento de agência. Nas suas caminhadas pode manter contato com a comunidade, observar o crescimento da cidade e foi vítima de inúmeras mordidas de cães.

“Trazia a correspondência ao destino e saia apressadamente, por que quando menos esperava tinha um cachorro no encalço. Teve uma vez que oito cães saíram da casa, foi um desespero, consegui me livrar de cinco, mas de outros três não foi possível”, se recorda Pavia.

Basta entrar na rua com uma sacola que os cachorros já conseguem identificar um pedinte ou vendedor, o latido põe em alerta todos os cães da via pública, mas com o carteiro tem ainda mais um agravante, a impressão é que os cachorros já sabem até a hora que esse profissional vai aparecer e aí o estrago pode ser maior!

Pavia observa que na época era comum as casas terem cães Pastor Alemão ou de raça não definida. Os que popularmente são chamados de “vira-lata” eram os que mais davam trabalho.

“Tinha uma casa no Rio Acima que toda vez que passava em frente tinha que ter um pedaço de tijolo na mão, não era para agredir, mas para inibir o ataque, por que o cachorro vinha para barbarizar. Reclamávamos muito, dizendo ao dono que prendesse o cão, mas respondia que se fizesse isso a casa virava alvo da bandidagem e não tomava providência” comenta Pavia.
Se para ele não era fácil conviver com a situação, imagine que no início da carreira havia ainda influência da ditadura militar. A qualquer reclamação que chegasse à chefia os carteiros eram severamente repreendidos. Ao se apresentar diariamente na agência era obrigatório estar barbeado, com sapato engraxado e usando uniforme composto por calça, jaleco e camiseta por baixo.

Nesse período entre os anos 80 e 90, Pavia e os demais carteiros percorriam em média 30 a 40 km por dia na cidade, hoje com a adequação de setores, o percurso agora é menor, mas o desgaste continua sendo grande ao encarar sol, chuva, frio e vento. Mesmo utilizando o boné e o protetor solar, quando a idade avança começa a aparecer as manchas de pele.

“Nem sempre as cartas trazem boas notícias e as pessoas ficam incomodadas em receber correspondências que são impostos e multas, imagine que no passado entregávamos intimações judiciais. Tinha um funcionário da delegacia designado para fazer a entrega, mas dependendo do destinatário preferia encaminhar pelos Correios e sobrava para os carteiros levar a intimação. Ainda bem que não sabíamos o conteúdo e não tivemos problemas na entrega”, relembra Pavia.

O melhor momento do trabalho nos Correios é o final de ano, principalmente no passado quando as pessoas demonstravam maior generosidade e é incrível, pois o povo gosta de dar litros de bebidas e para quem passou o ano todo carregando uma mala de correspondências, como armazenar esses presentes ao percorrer as ruas?

“Chegava um momento que precisava esconder os vinhos e espumantes no meio do mato, para prosseguir trabalhando e ao término voltar para buscar, depois repartíamos na agência entre os demais profissionais que não estavam envolvidos diariamente nas entregas” comenta Pavia.

Hoje ele comemora as conquistas profissionais e ainda relembra quando criança, morando em Santa Helena. Ali observava que as cartas vinham de bonde e depois colocadas numa caixa dos correios, onde os próprios interessados podiam pegar as correspondências ou esperar que as crianças percorressem as ruas se incumbindo de distribuir aos destinatários.

 

Antonio Fernando Pavia


Formação do conjunto Mário Augusto Ribeiro, em 1985


Casas com cercas de madeira na rua Paula Ney

 

(Cesar Silva é jornalista formado pela Uniso, gestor público pós-graduado pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), membro da Academia Votorantinense de Letras, Artes e História e autor dos livros Nossa História Nossa Gente - volumes I e II)

 

Coluna publicada na página 13 da edição 142 da Gazeta de Votorantim de 31 de outubro a 6 de novembro de 2015







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