16/11/2015 - 17:21
Emprego garantido a toda família
 Foto: Divulgação 

Operários da fábrica de tecidos Votorantim em 1920

A fábrica de tecidos Votorantim era a grande geradora de empregos no distrito e era comum, vez ou outra, alguém encontrar o gerente Mathias Gianolla e fazer o pedido por aumento salarial. Como não era possível dar um tratamento diferenciado, o recurso ao gestor da empresa era perguntar se havia algum filho em idade para trabalhar; se sim, então era encaminhado no dia seguinte ao escritório para ser admitido e garantir o aumento da renda familiar.

Foi usando dessa política que a empresa gerava emprego a integrantes de uma mesma família e muitos aproveitaram a oportunidade para se firmar, fazendo dali o único emprego da vida profissional. Algo que não encontramos mais, tamanha a rotatividade existente na indústria.

Nerino Pinho é um exemplo desse envolvimento familiar com a empresa. Ali ele permaneceu por 31 anos e contou com esposa, irmãos, pais e sogros trabalhando na firma.

“O vínculo familiar era forte. Minha mãe entrou trabalhar na fábrica com 9 anos de idade, meu pai foi um pouco mais privilegiado, tinha 11 anos. Contava minha mãe, que na hora do almoço, se unia a outras meninas, pegavam alguns pedaços de pano e brincavam como se fossem bonecas. O uso do trabalho de crianças era geral, não acontecia só na fábrica de tecidos Votorantim”, comenta Nerino, justificando o que para muitos agora causa estranheza, era algo comum no passado.

Se muitos trabalhavam na empresa e frequentavam os mesmos locais, os jovens se conheciam e engatavam um namoro. Assim aconteceu com os pais de Nerino que se casaram e continuavam a trabalhar na fábrica. Nerino após o nascimento, era levado pela irmã mais velha, às 7h30 e às 10h30 para ser amamentado pela mãe operária em um reservado, próximo da portaria, ao término a genitora retornava à produção. Nos mesmos horários, outros bebês recebiam a mesma atenção, entre eles, Odila Matioli, com diferença de idade de um mês e cinco dias.

Quis o destino que quando Nerino e Odila fizeram 18 anos, nos jardins em frente da antiga igreja de São João Batista começassem a namorar e depois de seis anos, seis meses e seis dias aconteceu o casamento.

Nerino que havia entrado aos 22 anos na empresa como estagiário em Química, antes se dedicando integralmente aos estudos, teve seis meses depois a efetivação como químico. Com o passar do tempo foi chefe de sessão e químico responsável pela produção de tecidos.

“Quando entrei na empresa, em 1958, eram 5 mil operários, só nos setores de Estamparia, Tinturaria e Acabamento haviam 650 pessoas. Imaginar que dentro de um processo de modernização, quando saí aposentado em 1983, porém ficando mais 6 anos, só haviam 80 pessoas trabalhando nesses setores” comenta Nerino.

Ao contrário de décadas atrás, onde se via uma multidão entrando ou saindo pela portaria com o apito regulando a vida de todos. O primeiro sinal tocado às 4h15 da manhã, era para avisar aos moradores das vilas operárias a se preparar para o início do primeiro turno, às 5 da manhã. No começo era um apito de embarcação naval, somente com o tempo é que foi trocado por uma sirene.

“Naquele tempo sobrava emprego, a maioria vinha de bondes de Sorocaba, com vagões separados para homens e mulheres. Para os filhos pequenos havia a creche mantida pela fábrica e a escola maternal para os maiores. Quando necessário era engatado no último vagão um trolinho que servia para levar o caixão até a rua Paula Souza, em Sorocaba, de lá os acompanhantes prosseguiam com o cortejo. Foi o Grupo Votorantim que construiu o cemitério de Votorantim, que após a emancipação passou a ser mantido pela Prefeitura” destaca Nerino.

Para muitos o tempo passou rápido demais, mesmo exposto a jornadas intensas de trabalho, às vezes como o maquinário não podia parar, os operários se alimentavam com suas marmitas nas mãos e de olho fixo nas máquinas, se sentavam, mas permaneciam vigilantes.

Para Nerino Pinho a fábrica foi muito importante em sua vida. Após cursar o grupo escolar Comendador Pereira Inácio ganhou bolsa de estudos e depois admitido pela empresa. Fala com orgulho que esse trabalho garantiu o sustento de sua família, criou seus três filhos e conseguiu tudo que precisava, como ter a casa própria e o conforto necessário para agora curtir o tão merecido descanso da aposentadoria.

 

Pátio fronteiro à fábrica e à direita a igreja São João Batista

Nerino Pinho

Setor antigo da Alvejaria, dentro do processo de beneficiamento têxtil

 

(Cesar Silva é jornalista formado pela Uniso, gestor público pós-graduado pela Univ. Fed. do Estado do RJ (Unirio), membro da Academia Votorantinense de Letras, Artes e História e autor dos livros Nossa História Nossa Gente - volumes I e II)

 

Coluna publicada na página 17 da edição 144 da Gazeta de Votorantim de 14 a 19 de novembro de 2015







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