23/11/2015 - 13:16
A quase centenária “Igreja da Linha”
 Foto: Divulgação 

Igreja Presbiteriana do Brasil, a Igreja da Linha

Num terreno entre as avenidas Reverendo José Manoel da Conceição (frente) e Luiz do Patrocino Fernandes (lateral) está edificado um dos templos mais antigos de Votorantim. É a Igreja Presbiteriana do Brasil com construção iniciada em 1917, conhecida pelos mais antigos como a “Igreja da Linha”, em referência aos bondes que passavam pelos trilhos nos fundos do templo.

Formada como Congregação em 1917 e organizada como Igreja em 1923, seu primeiro líder foi o reverendo Willian Kerr. Mas bem antes dele, quando a família Campos era detentora de uma considerável gleba de terras nas proximidades, recebeu a visita do reverendo José Manoel da Conceição, o “padre protestante”, que havia renunciado à condição de padre, pedindo o desligamento da igreja ao bispo de São Paulo e depois convertido ao Protestantismo.

Esse contato com a família Campos, tendo a frente José Carlos de Campos II, conhecido como Juca Carro, já que seu pai tinha o mesmo nome, possibilitou que um terreno fosse doado onde hoje está construída a Igreja. Mas bem antes da edificação do templo, houve cultos improvisados numa casa e a localidade ficou conhecida como rua dos Protestantes, atual avenida Reverendo José Manoel da Conceição. A Escola Dominical funcionou, no início, na casa dos Aguiar, da mesma família dos Campos, num terreno com várias mangueiras e onde hoje funciona um posto de gasolina, nas proximidades da igreja.

Maria de Campos é a popular Flor, neta de Juca Carro e uma das mais antigas frequentadoras. “Minha família era numerosa, agora com os falecimentos está bem menor. Não cheguei a conhecer o meu avô Juca Carro, mas sabendo da história, tenho orgulho de dizer que os Campos foram quem fizeram a doação de um pedaço de terra para construir a igreja” destaca Flor.

Ela desde os primeiros meses de vida já frequentava o templo, por isso fala com orgulho que foi uma “Cordeirinha de Cristo”, como são conhecidas as crianças que desde bebês são levadas à igreja por seus familiares.
Paralelamente a caminhada na igreja, Flor quando atingiu idade para trabalhar se tornou funcionária do escritório da fábrica de tecidos Votorantim e por longo período assumiu a função de caixa nos armazéns administrados pela empresa nos bairros Barra Funda, Chave e Vila Assis.

“Recordo-me que durante a Segunda Guerra Mundial, meu irmão Zito foi servir o exército, assim como outros do distrito. Por causa dessa situação que vivíamos chegava faltar nos armazéns produtos como pão e leite, então formavam filas com pessoas que amanheciam na espera, trazendo cadeira e coberta. Quando chegava era vendido somente um pão grande por pessoa, tudo racionado” relembra Flor.

Mas tirando esse momento de apreensão, era na igreja que Flor encontrava o conforto espiritual, não deixando de participar e seguir as orientações religiosas.

“Eu mesma não frequentava a Festa Junina, entendendo que é um evento de valorização dos santos católicos, então podia até passar perto, mas não parava e nem entrava no recinto” comenta Flor.
Assim como ela, muitos evangélicos mantêm essa postura, mesmo com o evento descaracterizado atualmente da forte ligação católica, já que o modernismo se apossou de alguns costumes e tradições que originaram esse típico festejo.

Ao longo do tempo Flor sempre apoiou o trabalho de pastores e presbíteros, mas algo incomoda e vê com estranheza. É o fato do saudoso presbítero Lecy de Campos denominar uma praça de eventos na entrada da cidade.
“Tive um contato bem próximo com o presbítero Lecy e posso dizer que era bem rígido e atento a prática religiosa. Depois de seu falecimento homenagearam colocando o seu nome num espaço que recebe inúmeros eventos, entre eles o carnaval, por isso posso afirmar que se ele fosse vivo não aceitaria essa associação do seu nome com esse espaço público” destaca Flor.

Flor serve de exemplo pela disposição e firmeza ao seguir a igreja. Assim como ela, outros tantos fiéis sempre se dedicaram limpando o templo, ornamentando o altar com flores e fazendo gestos simples que enriquecem ainda mais a prática de zelar pelo espaço religioso.

    Maria de Campos, a popular Flor


A Presbiteriana e seus membros


Avenida homenageia o reverendo conhecido como o padre protestante

(Cesar Silva é jornalista formado pela Uniso, gestor público pós-graduado pela Univ. Fed. do Estado do RJ (Unirio), membro da Academia Votorantinense de Letras, Artes e História e autor dos livros Nossa História Nossa Gente - volumes I e II)

 

Coluna publicada na página 13 da edição 145 da Gazeta de Votorantim de 20 a 27 de novembro de 2015







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