21/12/2015 - 11:21
O professor fazendo a diferença na vida do aluno
 Foto: Divulgação 

O desfile envolvia toda a comunidade, mostrando a união da escola e a família

Quando chega a aposentadoria é momento de comemorar, principalmente se estiver bem de saúde. É a certeza que não haverá mais a rotina diária e estressante do trabalho, uma nova fase para buscar o relaxamento físico, mental e curtir mais a família.

A professora aposentada Heide Belini comemora ter vivido mais da metade da vida em sala de aula, lecionou nas escolas Comendador Pereira Inácio (Barra Funda), João Ferreira da Silva (Santa Helena), Wilson Prestes Miramontes (Parque Jataí), Lauro Alves Lima (Jardim Serrano) e Daniel Verano (Parque Bela Vista), sem contar escolas em Piedade, Ibiúna e Pilar do Sul. Agora mesmo tendo motivos para celebrar, sente saudade da relação de educadora com os alunos.

“Imagine a professora descer do ônibus com destino à escola e os alunos a esperar, principalmente as meninas, que brigavam para ver quem levava a bolsa e os demais materiais para lecionar. Em sala de aula eu colocava uma toalha na mesa do professor e tinha um vaso, onde as crianças faziam questão de pôr flores” fala com orgulho a professora.

Além desse envolvimento com o professor, havia maior respeito. Ao bater o sinal formavam-se filas, cada um se dirigindo ao seu lugar na classe e só sentavam quando o educador autorizava. O Culto à Bandeira era outro momento valoroso, os estudantes se esforçavam para aprender a cantar os hinos Nacional, da Independência e da Proclamação da República, entre outros.

“Sempre fui amorosa com os alunos e o trabalho era facilitado, mas as mães vinham e falam assim: Enquanto meu filho estiver na escola faça o que for necessário, se precisar dar uns puxões de orelha dê. Os pais preferiam os professores mais enérgicos e hoje a realidade é totalmente diferente” comenta Heide.

Foi um passado que a cumplicidade da escola e a família era muito grande, existia o sentimento de agradecimento do aluno ao professor, reconhecendo a importância e necessidade na sua formação escolar e cidadã. Tanto que Heide sempre recebia mimos!

“Em sala de aula ganhava frutas como laranja, maçã e mexerica. As meninas eram mais espontâneas, já os meninos ficavam acanhados. Ao trazerem na maioria das vezes, estavam com as mãos para trás, colocavam na minha mesa e saiam correndo. Quando eram flores, levavam escondidas” comenta toda sorridente.

Foi um período que a escola Comendador Pereira Inácio era a referência, havia outras unidades chamadas “escolas isoladas”, que na maioria das vezes era uma casa alugada e adaptada em pequenos bairros e distantes das vilas operárias. Funcionava em salas simples e com poucos recursos. A grande concentração dos alunos estava na escola Comendador, que encaminhava seus professores para irem até as “escolas isoladas” para aplicarem o exame final. Nessas “escolinhas” havia no máximo os três primeiros anos, quando chegava ao quarto ano o aluno não tinha outro recurso senão estudar na escola Comendador.

Apesar de ser uma fase rigorosa no ensino, havia grande generosidade dos educadores. A professora Heide trabalhou com a diretora Dirce Foster, da escola Wilson Prestes Miramontes, que apesar de ser considerada muito brava, sabia ser caridosa. Ela abria o estabelecimento de ensino nos finais de semana e no recesso escolar, para dar merenda aos alunos que não tinham o que comer na casa. Heide também relata uma experiência vivida na escola Comendador Pereira Inácio.

“Tinha um aluno que chegava de manhã e ficava se sentindo mal, eu o levava ao pátio, abaixava a cabeça dele, pedia para respirar de forma profunda e foi aí que perguntei se tomava café na casa para vir à escola. Ele falou que não havia nada para comer. Fui até a padaria do Aroldo Parri, que ficava na continuação da rua da escola e falei que fizesse um lanche e um copo de café todo dia para o menino, no final do mês eu acertaria a conta. Aroldo Parri disse que deveríamos repartir a caridade, que metade da despesa seria absorvida por ele. Com isso, o menino nunca mais se sentiu mal na escola. Foi um período que não havia merenda escolar!” comenta a educadora, que finaliza dizendo que assim como o sacerdote abre nossa mente à espiritualidade, o educador tem o dever de nos preparar para o mundo. 

Heide Belini

Escola Primária de Emergência do Monte Alegre, em 1967. Prédio alugado pela Prefeitura

Unipré da Vila Pedroso, na região do Itapeva


(Cesar Silva é jornalista formado pela Uniso, gestor público pós-graduado pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), membro da Academia Votorantinense de Letras, Artes e História e autor de dois livros sobre a História de Votorantim)

 

Coluna publicada na página 17 da edição 149 da Gazeta de Votorantim de 19 a 25 de dezembro de 2015







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