01/02/2016 - 16:29
Amor ao trabalho e valorização ao emprego
 Foto: Divulgação 

Fábrica de Tecidos Votorantim

Será que ainda podemos encontrar uma empresa como foi a Fábrica de Tecidos Votorantim, que garantiu por muitos anos trabalho a toda a família, formação escolar aos filhos dos operários desde a creche e escola maternal, os primeiros anos do Ensino Fundamental e até o aprendizado num convênio para funcionamento da Escola SENAI?

Encontramos ainda alguma empresa que se assemelha com essa fábrica, a primeira do Grupo Votorantim, que garantia facilidades às famílias operárias ao construir e manter espaços como o antigo centro do distrito, as vilas operárias, estádio, clube com piscinas, cinema, praças e armazéns? Ou existe outro olhar que é preciso ser lançado ao observar os interesses patronais, como o ganho financeiro e a ampliação de seus negócios?

O promotor de justiça aposentado Adair Alves Filho é nascido na rua João Tobias, na Barra Funda, filho de pai natural de Araçoiaba da Serra e de mãe espanhola que aqui chegou em 1921. Adair Filho, assim como seus pais, trabalhou na fábrica Votorantim e trás subsídios para melhor reflexão sobre o assunto.

“Era preocupação da fábrica Votorantim a forma de vida dada na época. Os operários não tinham uma remuneração considerável, mas é preciso analisar as condições que eram oferecidas. Havia um padrão inspirado no sistema inglês, que privilegiava moradias, bom ensino e tratamento adequado na saúde e no trabalho” comenta Adair.

Essa junção de fatores permitia melhor interação entre os operários e boa parte daqueles que com suas famílias residiam nas casas oferecidas pela empresa. Os salários eram diferentes mediante a função exercida, mas a convivência diária na comunidade permitia viver nas mesmas condições e apesar de algumas dificuldades da época, ficou a certeza que todos eram felizes.

“Talvez alguns venham a criticar o Grupo Votorantim, mas temos que pensar que suas indústrias davam suporte muito grande aos operários. Havia grande amizade, tanto que no ambiente interno nós encontrávamos chefes que eram amigos de simples empregados e esse bom relacionamento era levado para fora da fábrica. Isso fez com que Votorantim até hoje mantivesse as pessoas bem próximas” reforça Adair.

Imaginar que morando na vila operária era comum ter uma vizinha ou alguém das proximidades trabalhando em lugares onde os filhos dos trabalhadores recebiam os cuidados e formação escolar.

“Havia a preocupação com a saúde, segurança e educação. A própria creche contava com um sistema de aprendizagem e de equilíbrio nas orientações das professoras. Ninguém pode se esquecer de dona Paulina, dona Selma, dona Francisca e demais funcionárias. Depois que o aluno se despedia da creche e escola maternal ia para o Grupo Escolar Comendador Pereira Inácio, foi isso que aconteceu comigo. Lá encontrava um ambiente com a mesma dedicação” comenta Adair.

Seu trabalho quando operário da fábrica Votorantim foi na seção da Tecelagem, o de sua mãe na Fiação, já o seu pai teve que sair da empresa com a greve de 1948. Apesar desse momento de apreensão, a família não veio sofrer qualquer perseguição, tanto que a mãe de Adair Filho e demais familiares se mantiveram empregados.

“Uma das preocupações desse momento foi quando fui prestar um processo seletivo para tentar ingressar na escola SENAI, que era muito concorrido e tinha o receio que sendo filho de um ex-empregado poderia ser eliminado. Tornei-me aluno e fiz parte do Grêmio Estudantil José Ermírio de Moraes Filho” relembra Adair que também fez parte do Grêmio Estudantil do Ginásio Estadual de Votorantim, que foi denominado posteriormente como Daniel Verano e ainda participou do JEC (Juventude Estudantil Católica).

Adair guarda muitas lembranças do período em que morou em Votorantim, desde o nascimento em 1946, até 1970 quando se casou e veio morar em Sorocaba. Foi até coroinha do padre Antônio Maffei. Afirma ter muitos laços de amizade e pôde retornar em várias oportunidades para trabalhar na cidade onde nasceu. Foi procurador jurídico e secretário de Negócios Jurídicos em dois mandatos de prefeito. Quando da enchente de 82, era 1º Tenente da 2ª Companhia do 7º BPM/I em Sorocaba e foi designado a auxiliar os trabalhos de reorganização das áreas atingidas. 

Adair Alves Filho

Escola profissionalizante Senai, em novembro de 1963

Grêmio Escolar José Ermírio de Moraes Filho, da escola Senai, em 1962

(Cesar Silva é jornalista formado pela Uniso, gestor público pós-graduado pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), membro da Academia Votorantinense de Letras, Artes e História e autor de dois livros sobre a História de Votorantim)

 

Coluna publicada na página 13 da edição 153 da Gazeta de Votorantim de 30 de janeiro a 5 de fevereiro de 2016







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