29/02/2016 - 17:06
A disposição de cada vanguardeiro garantiu a Emancipação
 Foto: Divulgação 

Vanguardeiros na campanha do desmembramento

Todos nós temos referências em quem nos espelhamos ou admiramos. Na maioria das vezes são nossos pais, o irmão mais velho ou um ídolo que se mostrou promissor e conquistou o merecido sucesso. Votorantim também tem e não deve deixar de valorizar os vanguardeiros. Os protagonistas do movimento que impulsionou o distrito a dar o grito de liberdade para o desejado desenvolvimento. Eles são exemplos para que nos dias atuais tenhamos referências para melhor exercitar a disposição de dar nossa parcela de contribuição em prol da cidade.

Muitos vanguardeiros já faleceram e com eles se perdeu parte da memória local, mas ainda é possível encontrar algumas dezenas de participantes do movimento. São entusiastas que falam com orgulho da transformação do distrito em cidade.

Em cada testemunho a certeza que valeu a pena. Um movimento que idealizou a necessidade do próprio local de gerir seus recursos, sem depender e esperar de Sorocaba. Uma mobilização democrática que foi às ruas com comícios pró-desmembramento e que foi se fortalecendo com o apoio maior do Grupo Votorantim.

Muitos estiveram em meio ao povo, pessoas que na simplicidade não buscavam holofotes, mas sabiam que era oportuno somar forças e buscar a tão almejada Emancipação. Maria de Lourdes Cardoso Mota, conhecida por muitos como dona Lourdes Vicentina, foi uma dessas pessoas.

“Acreditamos e lutamos. Como sempre gostei de estar em contato com as pessoas, vi a necessidade de trabalhar pela Emancipação. Fui até o Clube Atlético Votorantim e pedi para fazerem a minha carteirinha de vanguardeira” comenta toda orgulhosa.

Ela é natural de Piraju, aos quatro anos de vida era órfã de pai e mãe, sendo criada pela avó e por tios. Aos 22 anos veio morar em definitivo em Votorantim. Por muitos anos ofereceu seus serviços de passadeira de roupas e de empregada doméstica. Comenta que trabalhou nas casas das famílias do médico Heitor Avino, do gerente da fábrica Votocel Pedro Augusto Rangel que depois se tornaria prefeito e do prefeito Luiz do Patrocino Fernandes. Foi posteriormente merendeira na Cozinha Piloto e nas escolas “Pedro Augusto Rangel Filho”, “Abimael Carlos de Campos”, “Izabel Ferreira Coelho” e “Usina de Itupararanga” (Light).

A primeira moradia por aqui foi um local desativado, onde funcionou a Audição do Alto Falante, na rua Sorocaba. O imóvel de propriedade de Mário Galli foi cedido até o marido de Lourdes conseguisse um emprego.
Essa vida simples, mas movida por boa disposição fez com que Lourdes fosse vista frequentemente durante a campanha pela emancipação de Votorantim como mais uma pessoa que encampou os ideais da luta pelo desmembramento.

Numa época onde as mulheres tinham mais filhos e consequentemente ficavam mais em casa, os homens se tornaram a maioria em meio às manifestações populares pela separação de Sorocaba. Lourdes com aquele jeitinho acanhado e humilde estava no meio das manifestações.

“Eu confesso que tinha bastante amizade com o José Carlos de Oliveira, o Luizão, que era um dos líderes contrários à emancipação. Mas independente da boa relação, sabia que era melhor para Votorantim se desmembrar de Sorocaba. Por isso me tornei vanguardeira” destaca dona Lourdes.

Passada essa fase onde o plebiscito ocorreu em 1º de dezembro de 1963, com a vitória esmagadora dos favoráveis ao desmembramento, nossos vanguardeiros guardaram panos personalizados do movimento, carteirinhas de vanguardeiro e continuam falando com orgulho da grande conquista que transformou Votorantim nos anos 60.

“Até hoje fico triste de lembrar que não conto mais com minha carteirinha de vanguardeira. Morava numa casinha de pau a pique e de barro no Rio Acima, tinha dois filhos pequenos e havia sido abandonada pelo marido. A vida não estava fácil, aí vieram vários dias de chuva que derrubaram uma parede. Perdi vários pertences, inclusive a carteirinha de vanguardeira, já os demais documentos consegui fazer a segunda via” destaca dona Lourdes.
Fique em paz nossa vanguardeira, pois sabemos que até hoje continua praticando dia a dia os ideais daqueles que estão à frente do seu tempo.

(Cesar Silva é jornalista formado pela Uniso, gestor público pós-graduado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (Unirio), membro da Academia Votorantinense de Letras, Artes e História e autor de dois livros sobre a História de Votorantim)

 

Coluna publicada na página 13 da edição 157 da Gazeta de Votorantim de 27 de fevereiro a 4 de março







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