14/03/2016 - 16:18
A dança como um voo de 14 bis


No último fim de semana (4, 5 e 7/03), o espetáculo de dança Silêncio, apresentado no Teatro Municipal Francisco Beranger, mostrou ser sintomático de problemas que merecem atenção, num tempo onde o fazer artístico não deveria mais ter desculpas para ser alienado de seu contexto histórico e estético. 

Na cena os jovens intérpretes Eduardo Barros e Evelin Bandeira realizam uma sucessão de clichês que parecem importados dos anos 90 e que materializam a compreensão de onde parte a proposta do trabalho – um entendimento de corpo e gesto como representação de uma ação.

O gesto aparece sempre com o propósito de comunicar uma outra coisa fora dele, ou seja, o gesto é usado para ser suporte de metáforas e símbolos, tornando a dança refém da mensagem que intenciona transmitir. Quando se pensa dança assim, a transformamos num mero canal de transmissão de mensagens exteriores a ela, ignorando sua potente natureza como fonte de comunicação. Torna-se então precária a exploração poética de suas materialidades, pois o compromisso fica atado a lógica da comunicação verbal, na qual se pretende dar notícias e não investigar a produção de sentidos.

No século passado o coreógrafo russo George Balanchine já tinha nos ajudado a entender que a dança não tinha a tarefa de emitir mensagens ao dizer que, se quisesse dar um recado faria um bilhete e não uma coreografia, pois certamente seria mais eficiente e econômico com seu tempo e energia.

Vale pensar que quando o bailarino representa um personagem ou um sentimento através de seus gestos, o ato de representar arma um arapuca para o intérprete, pois ele deixa de ser o que poderia em cena e nunca chega a ser aquilo que deseja representar, o que se dá então, é um vazio representativo e superficial.      

Em Silêncio para representar o desespero puxam-se os cabelos, para representar a raiva se faz cara de bravo, para representar o silêncio, se tapa a boca com as mãos e assim sucessivamente vai ficando claro que a compreensão de personagem, representação, pantomima, literalidade, além de problemas técnicos na execução dos passos, atrapalham o desenvolvimento de um trabalho que se pretende profissional.

O cenário fica sob o entendimento de um mero lugar onde a dança acontece. Sem relação com suas materialidades, luz e trilha sonora se abrigam nessa mesma compreensão. Tal entendimento prejudica ainda a projeção de Gabriel Diaz-Regañon, que se torna mera alegoria multimídia e legenda plástica que grifa cada gesto executado no espaço através de um Kinect, uma espécie de sensor ótico que captura os bailarinos e projeta em cores uma espécie de gráfico espectral dos movimentos em tempo real.

A direção da peça é assinada por Luciana Ramin e a idealização é de Evelin Bandeira. O projeto foi contemplado em 2015 pelo edital de primeiras obras do Programa de Ação Cultural da Secretaria do Estado da Cultura, mas o fato de ser uma primeira criação não deverá justificar seu descomprometimento e falta de contribuição com a produção de conhecimento no campo onde atua.    

Silêncio é sintomático do mundo dos editais de incentivo a cultura, onde a lógica de fomento à arte monta uma espécie de ficção, fazendo do campo artístico uma área profissional que não se regula por regras de competitividade de mercado. Basta lembrar que, em qualquer mercado, se faz antes o trabalho e depois se recebe a recompensa por ele, já com os editais, se ganha antes o dinheiro e o trabalho acontece depois.

Por isso, talvez, os trabalhos artísticos ainda possam ser alienados do seu ambiente histórico e sua produção de conhecimento ainda não seja uma exigência, permitindo que artistas levem seu púbico a crer que correr o risco de sobrevoar o presente numa viagem de 14 bis, é uma novidade que vale ser conferida.

 

Coluna publicada na página 10 da edição 159 da Gazeta de Votorantim de 12 a 18 de março







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