04/04/2016 - 12:37
Fim dos bondes e início da circulação dos ônibus
 Foto: Divulgação 

Vanguardeiras transportadas na campanha da Emancipação

No início de agosto de 1966 foi fixado na Estação Paula Souza e demais plataformas de passageiros de Sorocaba e Votorantim, um comunicado aos usuários dos bondes, avisando que precisamente no dia 22, esse meio de transporte interligando as duas cidades deixaria de funcionar e a alternativa seria o uso dos ônibus a circular nos mesmos horários das composições.

Era o fim de uma tradição de mais de meio século, que chegou a ter mais de 20 composições circulando diariamente e se notabilizou por transportar a grande massa operária. A decisão afetou somente os passageiros, com a ferrovia passando a atender exclusivamente o transporte de cargas.          

Isso fortaleceu a presença dos ônibus na comunidade local. Eram inicialmente seis veículos usados em ruas lajotadas ou de terra, percorrendo bairros em formação, sofrendo com a topografia bem acidentada de Votorantim e interligando com Sorocaba.

João Pedroso e seus familiares foram os primeiros proprietários da Votur – Transporte Urbano Votorantim Ltda. com escritório e garagem no bairro da Chave. A empresa foi vendida ao empresário Antonio Güitte que chegou montar uma construtora na cidade. Posteriormente foi adquirida pela Auto Ônibus São João Ltda., atual concessionária do transporte público municipal.
Marco Antonio Franco é o atual gestor da empresa e comenta a importância do serviço à comunidade.

“O transporte está integrado no cotidiano de muitas pessoas. Seja no deslocamento ao trabalho, escola, lazer e compras. É um vínculo muito próximo, não se envolvendo somente por alguns dias, para muitos será ao longo da vida. Antigamente era difícil alguém ter a sua condução individual como carro e moto. As pessoas dependiam muito do transporte coletivo, quando muito tinha bicicleta. Agora, apesar das cidades crescerem, o número de transportados tem diminuído” comenta Marco Antonio.

Quem não se lembra do cobrador, profissão que foi responsável pelo primeiro emprego para muitos e do período que a tarifa não tinha valor arredondado. Os passageiros não queriam abrir mão de receber o troco em centavos. No final das discussões virava gorjeta e ao término do mês representava um segundo salário na mão dos cobradores.

Outra figura que deixou de existir foi o fiscal. Conhecido pela maioria como um “dedo-duro” da empresa, no comentário popular era o que “entregava” sobre a conduta do motorista e do cobrador, além de fez ou outra fazer jogo duro até com os passageiros, alegando que as crianças estavam grandes demais para passar por baixo da roleta e precisava pagar a passagem.
“Acho que quem mais sofria era o próprio fiscal. Era obrigação do ofício, visto como antipático, se criou uma imagem de pessoa má, na realidade eram contratados para aquela finalidade. Tinham senso de responsabilidade e eram bem intencionados” destaca Marco Antonio.

Todos que sempre se utilizaram do sistema de transporte devem ter boas histórias para contar. Na verdade vai poupar de contar as que protagonizou e relatar somente o que aconteceu com os outros. Uma das piores situações é o drama de ser vencido pelo cansaço e dormir no ônibus. Quando acordado, na maioria das vezes era o motorista avisando que estava no ponto final. Pior ainda, é estar em ônibus fretado para empresas e ser acordado somente na garagem de ônibus.

“Percebo que bons costumes e hábitos estão desaparecendo. Antigamente não precisava ter espaço reservado para idosos ou gestantes. Em qualquer parte do ônibus dava-se o assento agindo pelo coração, pela satisfação. Hoje é preciso ter poltronas reservadas” comenta Marco Antonio.

Apesar dos tempos serem outros, não tem como não lembrar que antigamente os ônibus eram mais barulhentos e mais quentes, inclusive tendo o motor do lado do motorista. A entrada de passageiros se dava pela porta traseira, agora é pela dianteira. Que sofrimento quando a ida a Sorocaba era feito em estrada de terra e era preciso fechar as janelas para evitar a entrada em excesso de pó. Antes, você era deixado somente em vias principais, com o crescimento da cidade os ônibus adentram nos bairros.

O sistema se modernizou e os ônibus agora oferecem maior conforto. O desafio é acompanhar os novos tempos, se adequando às necessidades e voltando a ser mais presente na vida das pessoas.

(Cesar Silva é jornalista formado pela Uniso, gestor público pós-graduado pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), membro da Academia Votorantinense de Letras, Artes e História e autor de dois livros sobre a história de Votorantim)

 

Coluna publicada na página 12 da edição 162 da Gazeta de Votorantim de 2 a 8 de abril







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