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Mãe de rapaz que morreu afogado apela para que Cachoeira da Chave seja interditada

Ivana Santana
 Foto: Ivana Santana 

Perigo não é notado por frequentadores

“Uma amiga me ligou, ela nem conseguia falar direito porque estava nervosa. Aí ela me falou: ‘Célia, aconteceu uma fatalidade’. Eu falei para ela: ‘o que aconteceu, o que aconteceu? ’ E ela não queria falar. Aí eu comecei a gritar e falar: ‘por favor, me fala o que aconteceu!’ E aí ela falou assim: ‘o Anderson faleceu’. Eu falei: ‘como que ele faleceu?’ E ela me disse que ele se afogou na cachoeira de Votorantim”. A dona de casa Célia Maria Alves Costa, de 56 anos, se emociona ao lembrar da tarde do último dia 29 de dezembro, quando recebeu a notícia de que seu filho Anderson Alves Caboclo, de 35 anos, havia morrido afogado na Cachoeira da Chave.

No verão, os casos de afogamento em rios, cachoeiras e lagos aumentam, como explica o comandante do posto de Bombeiros de Votorantim, Heron Buono de Oliveira: “por isso, o Corpo de Bombeiros aconselha que não sejam procurados esses locais para lazer. Aconselhamos as pessoas a procurarem um local privado, como uma piscina ou um local que tenha guarda-vidas, como a praia, onde os bombeiros trabalham com sistema de guarda-vidas temporários para reforçar o atendimento na temporada. Porque se na piscina já há riscos, imagina em uma cachoeira, onde você não está visualizando o fundo dela. Torna-se um local extremamente perigoso”.

Dona Célia perdeu o filho na Cachoeira da Chave em uma tarde de sábado. Ela conta que o rapaz era caseiro, saia pouco e não costumava frequentar cachoeiras, praias ou piscinas. Na tarde fatídica, ele estava em casa com sua irmã, seu sobrinho e uma amiga. Anderson e sua irmã moravam com a mãe, no bairro Vila Hortência, em Sorocaba. “A ideia de sair foi da minha filha. Eles estavam aqui em casa depois do almoço e ela quis dar um passeio. Foi ela, meu neto de sete anos, uma amiga e o Anderson. Mas eu não sabia que eles iam para a cachoeira, senão eu nem teria deixado. Porque essa cachoeira já é muito comentada. Amigas minhas já perderam filho lá também. Eu já tenho conhecimento desse perigo que tem nessa cachoeira”, conta Célia.

A irmã de Anderson relatou no boletim de ocorrência que ele adentrou na água por volta das 16h e não retornou mais à superfície. “Minha filha estava desesperada. Ela chorava e gritava, ela falava que não era culpa dela, que ela estava olhando, mas que foi questão de segundos que ela tirou as vistas e ele sumiu”, relata Célia. O Corpo de Bombeiros foi acionado e localizou o corpo do rapaz submerso após 40 minutos do seu desaparecimento, constatando o óbito. “Os bombeiros me falaram que tem buracos de oito metros de profundidade lá, e com a correnteza, ele puxa as pessoas”, afirma Célia.

 

Mãe apela para que 

interditem a Cachoeira

Célia diz que está em contato com a prefeitura e com a Secretaria de Cultura e Turismo de Votorantim: “eu quero que eles solucionem o problema dessa Cachoeira, estou disposta a ajudar. Eu peço para que fechem o buraco que existe ali, ou que desativem aquela área, para que outras pessoas não morram ali. Porque não é fácil”.

“Eu falaria para outras mães evitarem deixar os filhos irem para aquele local. E vocês que são jovens, evitem de ir naquele local para não ter outras tragédias. Porque a Cachoeira da Chave é realmente perigosa. Às vezes os rapazes se iludem e vão se refrescar naquele local, não sabendo que correm um risco muito grande. A correnteza puxa muito. É perigoso e eu aconselho a todos que não voltem naquele lugar”, recomenda Célia.

 

Banhistas acham 

cachoeira segura

No entanto, alguns banhistas que frequentam a Cachoeira da Chave acham o local seguro. O carpinteiro Bruno Bonfim, de 31 anos, mora no bairro São Lucas e disse que já foi várias vezes ao local. Na tarde do último dia 12, sábado, ele estava lá com sua filha de oito anos. “É aniversário dela, e eu vim aqui comemorar hoje, trouxe ela para passear. Eu acho segura a cachoeira, nunca tive problemas aqui”, afirma. A menina também achou o local seguro: “eu não fiquei com medo da água. E eu achei a cachoeira muito legal”, comenta.

De acordo com Bruno, o que incomoda no local é a sujeira. “Aqui não está muito limpo, mas sempre foi assim. Muita gente vem aqui, come e bebe, e joga as sujeiras no chão”, destaca.

O comerciante Júlio Henrique Gouveia, de 34 anos, mora no bairro Wanel Ville, em Sorocaba, e foi ao local no último dia 12 aproveitar com a família. “Vim com minha irmã, meu cunhado e meus sobrinhos, de 12 e 3 anos. É a segunda vez este ano que eu venho aqui. Eu se pudesse viria sempre, é legal aqui. Eu acho segura. O problema, no meu ponto de vista, é quem bebe e vem pra cá. Eu fico tranquilo. Eu venho para passear. Agora, por exemplo, estou tomando um refrigerante. Mas às vezes tem gente que quer tomar cerveja ou alguma coisa alcoólica, e aí tem que tomar cuidado nessa parte. Com bebida não dá, atrapalha bem”, analisa. Ele ainda acredita que se houvessem guarda-vidas no local, seria mais seguro.

A estudante Rafaela Ribeiro, de 22 anos, concorda. Ela mora em Itu e no último dia 12 foi à Cachoeira da Chave pela primeira vez com os amigos. “O local é legal, é um ambiente verde muito bonito. Para quem mora na cidade é relaxante. E eu até acho seguro, mas acho que deveria ter mais pontos de fiscalização, ou até mesmo um posto dos Bombeiros aqui. Eu mesma não tenho muita coragem de entrar na água, tenho medo”, afirma.

Dona Célia, mãe do rapaz que se afogou em dezembro, acredita que a presença de um guarda-vidas poderia ter evitado a tragédia. “Na hora que o Anderson sumiu, uns rapazes que estavam lá até tentaram achar ele. Mas não eram pessoas especializadas em salvamento, né. Se na hora que ele caiu tivesse algum guarda-vidas lá, evitaria a tragédia. E lá não tem nada. É um local que deveria ter pelo menos um guarda-vidas”, ressalta.

Heron, comandante do posto de Bombeiros de Votorantim, explica que é inviável deslocar efetivo do Corpo de Bombeiros para todas as cachoeiras, rios e lagos existentes. “Existem poucos lugares no estado de São Paulo em que a gente coloca guarda-vidas em cachoeiras. Devido à existência de inúmeros locais, a gente acaba perdendo substancialmente o efetivo de atendimento de ocorrências mais graves se deslocarmos profissionais para lá. Então, o que a gente faz é recomendar que as pessoas não frequentem esses locais”, explica.

Questionamos a Prefeitura de Votorantim sobre o assunto, mas não tivemos resposta até o fechamento deste texto.

 

Orientações para 

frequentadores

“A gente tem, através do nosso Centro de Comunicação Social, uma série de recomendações em questão de afogamentos tanto em piscinas, quanto em áreas de cachoeiras. O grupamento marítimo fez, em parceria com o Maurício de Sousa, um gibi da Turma da Mônica que relata quais são as atitudes que os pais têm que ter com crianças, e até mesmo as atitudes que os adultos têm que estar em locais com riscos de afogamento. Então, a gente faz esse serviço de orientação. Mas tem pessoas que gostam de dificultar e se expõem aos riscos”, explica Heron.

Heron recomenda que, em caso de afogamento, as pessoas ao redor não devem entrar na água para tentarem ajudar, pois podem ser novas vítimas. “A gente recomenda que a pessoa que veja a cena jogue algum material flutuante para tentar tirar quem está se afogando. Não recomendamos entrar na água também, porque existem vários casos de pessoas que tentaram entrar para fazer o salvamento e acabaram virando mais uma vítima”, explica.

O comandante diz que é preciso ter atenção especial com crianças, até mesmo em locais que tenham guarda-vidas: “rapidamente a criança pode ver alguma coisa que chame a atenção e querer entrar na água. Então, os pais têm que estar atentos”.

A ingestão de álcool antes de entrar na água também não é recomendada. “A gente veda totalmente a utilização de cachoeiras e até piscinas após ingerir álcool, porque a pessoa perde totalmente o reflexo. A pessoa pode perder o equilíbrio, escorregar e ser mais um afogado”, conclui Heron.


Publicado na edição 301 da Gazeta de Votorantim de 26 de janeiro de 2019 a 01 de fevereiro de 2019, página 05.

 



Veja mais fotos:

  1. Bombeiro Heron Foto por: Ivana Santana

  2. Bombeiro Heron Foto por: Ivana Santana
  3. Bruno Bonfim Foto por: Ivana Santana

  4. Bruno Bonfim Foto por: Ivana Santana
  5. Célia mostra foto do filho Anderson Foto por: Ivana Santana

  6. Célia mostra foto do filho Anderson Foto por: Ivana Santana
  7. Júlio Henrique Foto por: Ivana Santana

  8. Júlio Henrique Foto por: Ivana Santana







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