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05/12/2020 - 00:36
Academia Sorocabana de Letras lança dois livros de Benedicto Cleto

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Um relato ímpar sobre o dia a dia dos tropeiros

Geraldo Bonadio

 

Até meados da década de 1950, o Estado de São Paulo adquiriu, no Rio Grande do Sul, tropas de mulas xucras. A despeito de já existir uma conexão ferroviária entre os dois Estados, muitas delas ainda eram trazidas por terra, passando pelos postos de fiscalização tributária ao longo do caminho. Quando a noite caia, estacionavam nos pousos, cercados, cercadinhos e cerquilhos, distribuídos ao longo do itinerário. Naqueles pontos, os animais eram soltos para pastar e matar a sede, vigiados em quartos de ronda pelos camaradas a cavalo até que um novo dia rompesse e a marcha fosse retomada.

Essa realidade multiplicou os bairros e povoações com nomes semelhantes em diferentes pontos do sudoeste paulista, dentro do enorme campo largo de Sorocaba que, ao contrário do que muitos imaginam, compreendiam o atual território de Araçoiaba da Serra, mas se distribuíam por muitos outros municípios – coisa que o trabalho de unificação de topônimos, em vias de ser iniciado pela Fundação IBGE, deverá demonstrar dentro de mais algum tempo.

A esta altura o leitor, em conversa com os seus botões, estará dizendo, de si para consigo, que seria ótimo se pudéssemos dispor do relato de uma testemunha presencial de tais eventos. Melhor, ainda, se essa pessoa aliasse à capacidade de bem visualizar e entender o que acontecia diante de seus olhos a de elaborar uma boa narrativa sobre isso? Pois bem: aleluia! Tivemos uma testemunha desse tipo, talvez a única em todo o sul de São Paulo: o itapetiningano Benedicto Cleto, que, à época, morava no Tucunduva, bairro rural daquele município.

Melhor que isso só se tal narrador, na época um autêntico matuto, tivesse posteriormente, estudado e obtido o tirocínio intelectual para, surfando nas próprias memórias, refiná-las, passando-as pelo filtro de uma erudição não desconectada de suas raízes telúricas.

Pois bem. Aquele tal de Benedicto Cleto, caipira e violeiro no tempo em que as mulas xucras cortavam o Tucunduva, tornou-se, adiante, um intelectual como poucos. Vai daí, há quarenta anos, convidado pela fantástica historiadora Vera Job para fazer a palestra de abertura da Semana do Tropeiro, nos tempos em que ela merecia esse nome, produziu um relato em que o mestre da linguística dialoga com o caipira que havia sido e compõe um esplendoroso painel daquele momento em que o ocaso do tropeirismo – seja o de tropas xucras seja o de tropas cargueiras – ainda não se completara.

Melhor que isso, só se alguém, num dado momento, houvesse recuperado o relato daquele mestre da cultura paulista - publicado de forma parcelada na imprensa sorocabana, há quarenta anos -, e reunido aqueles fragmentos num pequeno livro, tornando-o acessível às centenas de pessoas que, em diferentes pontos de nosso território, vão se dando conta de que, do início da colonização até o governo JK, foi em lombo de mula que o Brasil das cidades e aquele dos grotões se conectaram. Ou, mais incisivamente: soltos ou agrupados coletivamente de diferentes formas e com diferentes títulos, os coletivos de tais semoventes foram, até aquele momento, o único sistema de transporte de superfície de que a nossa Pátria dispôs.

Com a aquiescência e a parceria dos herdeiros de Benedicto Cleto, expressa através de sua filha Cliz Cleto, estou conseguindo, através da área editorial da Academia Sorocabana de Letras, realizar um velho sonho e apresentar, aos olhos de quantos o conheceram numa de suas múltiplas funções, sua real estatura, através do lançamento de um combo de dois livros de textos seus, impressos em tiragem reduzida.

Um dos livros daquele combo contém texto integral da palestra de Cleto sobre Tropeirismo e Folclore, que foca o dia a dia das tropas xucras e cargueiras em suas andanças pelo sudoeste paulista, iluminado por achegas de um grupo de escritores de grandes méritos que admiravam o seu trabalho. O empreendimento, levado a termo sem um tostão de dinheiros públicos, também vai permitir à Academia colocar aquele texto, preciosíssimo, ao alcance dos principais centros engajados na pesquisa daquela dimensão da cultura brasileira que ora pipocam por múltiplos pontos do país que as tropas ajudaram a construir.

A aquisição do combo pode ser feita diretamente da Academia, através de contato com Ivone Savioli pelo telefone ou whats (15) 98809-6477 ou e-mail ilsavioli@hotmail.com



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