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Votorantim,04/05/2026

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    Em Votorantim, 3.800 famílias vivem no patamar de miséria (Edição: Werinton Kermes)

    Ao todo, foram registradas 11.456 pessoas nessa situação

    Fonte: Jorge Silva/ Arquivo
    Em Votorantim, 3.800 famílias vivem no patamar de miséria (Edição: Werinton Kermes) Moradias precárias são vistas em favelas da cidade

     


    Valdinei Queiroz


     


    Em Votorantim, são 3.800 famílias que vivem no patamar de miséria, segundo dados divulgados em junho deste ano pelo Cadastro Único, do governo federal. Ao comparar com ano anterior, houve aumento de 708 famílias que ingressaram nessa situação. Aquelas que sobrevivem com menos de R$ 2,60 por dia, chegam a 2.748, enquadrando-se na linha de extrema pobreza.


    Outras, em situação de pobreza, convivem com R$ 6,00 diários para alimentação, moradia, roupas e higiene, no total de 1.052. E o mais alarmante nessa estatística: 2.615 crianças e adolescentes vivem nessa situação. No total, foram registradas 11.456 pessoas - 1.357 a mais que em relação ao ano passado - que enfrentam essa situação de miséria.


    Das famílias cadastradas no Cadastro Único, do governo federal, via de acesso aos benefícios sociais como o Bolsa Família, muitas delas acabam perdendo os seus benefícios por descumprirem requisitos legais para o recebimento do dinheiro, como a pesagem periódica das crianças nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e frequência escolar.


    Atualmente, o município tem 2.875 famílias (salário mensal de R$ 183,20) devidamente cadastradas no Bolsa Família e esse número é 12,7% maior se comparado ao ano passado, quando 2.551 tinham acesso ao benefício. Porém, do total de famílias em situação de miséria, 925 famílias ficam sem o amparo do programa, mesmo vivendo com uma renda inferior a de R$ 78 per capita por mês.


    Isto ocorre também devido a dados inconsistentes prestados ao Cadastro Único pela família, uma vez que o cadastro é autodeclaratório e o governo federal verifica essas informações comparando com outras bases de dados como o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS).


    Segundo informações do governo federal, em Votorantim, o acompanhamento da frequência escolar, com base no bimestre de março de 2019, atingiu o percentual de 80,8%, para crianças e adolescentes entre 6 e 15 anos, o que equivale a 1.835 alunos acompanhados em relação ao público no perfil equivalente a 2.272. Para os jovens entre 16 e 17 anos, o percentual atingido foi de 3,2%, resultando em 11 jovens acompanhados de um total de 343.


    Já o acompanhamento da saúde das pessoas (crianças até 7 anos e mulheres de 14 a 44 anos), conforme explica o governo federal, na vigência de dezembro de 2018, atingiu 64,8 %, percentual equivale a 3.021 pessoas de um total de 4.662 que compunham o público no perfil para acompanhamento da área de saúde de Votorantim.


    Em nota, a Prefeitura de Votorantim informou que existem famílias que não recebem auxílio por duas questões: pelo fato de não acessarem os equipamentos da Secretaria de Cidadania para requerer o benefício, ou pelo fato de não cumprirem com as condicionalidades exigidas para a manutenção no programa.


    Por meio dos três Centros de Referência de Assistência Social (Cras) Promorar, Novo Mundo e Itapeva, e também no setor de Bolsa Família/CadÚnico na Secretaria de Cidadania, as famílias em vulnerabilidade recebem atendimentos técnicos e com cadastramento para benefícios assistenciais. Essas unidades contam com assistentes sociais, psicólogos, dentre outros profissionais que ofertam para a população os serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos e o Serviço de Proteção e Atendimento Integral a Família.


     


    Como sobreviver a tantas desigualdades


    A reportagem da Gazeta de Votorantim percorreu alguns bairros de Votorantim onde essas famílias em situação de miséria residem, até chegar na Comunidade do Palmeirinha, região do Itapeva. Ali moram cerca de 300 famílias.


    No local, há várias moradias que foram construídas com madeiras ao longo dos anos em um terreno considerado de área verde, ou seja, que pertence ao poder público. São pequenas casas, com um ou dois cômodos e saneamento básico extremamente precário.


    Uma dificuldade vivida pela artesã Maria Aparecida Ferreira, 52 anos. Desempregada, ela sobrevive com R$ 180 do Bolsa Família e trabalhos temporários que aparecem. “Do ano passado para cá, está muito difícil de encontrar serviço. Como não arrumo nada, começo a confeccionar tapete, toalha e guardanapo”, disse. Maria Aparecida tem pressão alta, diabetes, colesterol alto e dor na coluna. Inclusive, está aguardando resultado de uma tomografia para ver se há necessidade de cirurgia.


    Em sua residência, mora seu filho, de 12 anos, um apaixonado por futebol e por animais. Quando a reportagem chegou, ele estava chutando uma bola, com a camisa do São Paulo Futebol Clube, em um pequeno quintal cujo chão é de terra batida em lamaçal. Gosta tanto de animais que tem três gatos e pensa em adotar um cachorro. “É o divertimento dele aqui na Comunidade do Palmeirinha”, explicou a mãe.


    Há pouco tempo, Maria Aparecida perdeu um dos seus filhos por depressão e distúrbio psicológico. “Meu filho me deixou já tem três meses e foi uma grande perda. Choro praticamente todos os dias pensando nele”. Ela tem sete filhos, sendo que três já se casaram, dois faleceram, um está detido e outro reside com ela.


    Como é comum em famílias que vivem em situação de miséria: o abandono paternal, também chamado de aborto paterno. O marido de Maria Aparecida sumiu há 12 anos, quando o filho mais novo nasceu. “Saiu de casa de repente e nunca mais voltou”, comentou a artesã, que mora na Comunidade do Palmeirinha desde 2000.


    Para complementar a alimentação da casa, Maria Aparecida vai até o Cras do bairro Itapeva para pedir uma cesta básica. “O pessoal de lá é bem atencioso. Sempre me ajuda quando pode. Sou bem grata ao Cras e as pessoas que trabalham lá”.


    Outra família que reside na Comunidade do Palmeirinha é a da dona de casa Rafaela Cristina dos Santos, 24 anos, que tem dois filhos, um de 5 anos, outro de 1 ano. E está grávida de três meses. Recebe, mensalmente, R$ 268 de Bolsa Família, o que ajuda a comprar leite, fraldas e alimentos para as crianças. “É muito importante esse benefício para poder alimentar meus filhos e ajudar no crescimento deles”.


    Seu marido, que é mecânico e tem 28 anos, nem sempre consegue serviço. Na semana em que a reportagem Gazeta de Votorantim esteve na residência dela, ele estava trabalhando em uma oficina perto do bairro. “Às vezes, quando ele fica parado por muito tempo, a gente vai até o Cras e pede leite e cesta básica. Mas foram poucas vezes que isso aconteceu”, disse Rafaela.


    O casal mora junto há cinco anos, apesar que Rafaela já morava na Comunidade do Palmeirinha com a sua mãe, que conseguiu um apartamento na Vila Votocel, dentro do programa de desfavelamento de Votorantim. “Eu já fiz o cadastro e estou aguardando ser chamado. Nosso sonho é sair daqui e ter um apartamento próprio”, disse.


     


    Mapeamento


    De acordo com dados da prefeitura local e do Plano Municipal de Mobilidade Urbana de Votorantim, estudo esse realizado no período de abril a novembro de 2016, as famílias com renda baixa moram em bairros como Novo Mundo, Jardim Tatiana, Itapeva, Parque São João, Fornazari, Conjunto Habitacional Mario Augusto Ribeiro (Promorar), Vila Nova Votorantim, Altos da Fortaleza, Jardim Primavera, Jardim Archila e Chave.


    O estudo ainda trouxe uma informação alarmante: “em relação aos mapas para cor de pele parda e preta em comparação com a distribuição da cor de pele branca, fica evidente que nos bairros mais periféricos, com menores indicadores de alfabetização e de renda identificados anteriormente, a população de pele parta e preta se destaca. A população de pele branca, por outro lado, ocupa as áreas com melhores indicadores socioeconômicos”.


     


    Outros dados


    A Secretaria de Cidadania e Geração de Renda informou, por meio de nota, que em junho de 2019 a cidade possuía 6.619 famílias inscritas no Cadastro Único, programa do governo federal que reúne informações socioeconômicas.


    Destas, 2.748 famílias têm renda per capita de até R$ 89,00 (extrema pobreza); 1.052 com renda per capita entre R$ 89,01 e R$ 178,00 (pobreza); 1.773 famílias entre R$ 178,01 e 1/2 salário mínimo; e 1.346 famílias com renda per capita familiar de 1/2 salário mínimo.


     


     


    Reportagem publicada na página 03 da edição nº328, do jornal Gazeta de Votorantim, de 03 a 09 de agosto de 2019.


     




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