Falta de planejamento ou interesses escusos?
Por Fernando Grecco*
A celebração de um contrato emergencial de R$ 1,5 milhão para a merenda escolar em Votorantim não é apenas um ato administrativo questionável — é um retrato alarmante da falta de planejamento que se instalou na gestão municipal. A alimentação escolar é previsível, contínua e essencial; não se trata de um evento extraordinário. Quando um governo recorre ao expediente emergencial para algo que deveria estar no calendário anual de compras, o que se revela não é urgência, mas, no mínimo, desorganização. E, pior, instala-se na população a nítida desconfiança de que a exceção virou regra.
O primeiro ponto incontornável é a ausência de planejamento. Contratos emergenciais existem para situações imprevisíveis, como desastres naturais ou interrupções abruptas de serviços essenciais. Merenda escolar, porém, não é surpresa para ninguém. O ano letivo tem data para iniciar, o número de alunos é conhecido, as necessidades alimentares são estimáveis. Quando a Prefeitura “falha” nesse básico, o que se vê é improviso administrativo. E improviso, quando envolve recursos públicos e alimentação de crianças, não pode ser tratado como detalhe burocrático — é sintoma de gestão decadente e temerária.
O segundo aspecto é o efeito corrosivo que esse tipo de medida produz na confiança pública. A dispensa de licitação, mesmo quando legalmente possível, precisa ser excepcional e rigorosamente justificada. Caso contrário, abre espaço para suspeitas de favorecimento, sobrepreço e total falta de transparência. A população, que já enfrenta serviços públicos frágeis, tem o direito de questionar por que R$ 1,5 milhão foram comprometidos sob a justificativa de emergência. Para Jean-Jacques Rousseau, “o povo inglês pensa ser livre, mas engana-se redondamente; só o é durante a eleição dos membros do Parlamento”. A frase ecoa quando decisões relevantes são tomadas sem debate claro e sem o devido escrutínio público.
Há ainda um elemento político que agrava o cenário. O atual prefeito parece ter aprendido com seu irmão, prefeito de Sorocaba e seu padrinho político, um estilo de governar marcado por irresponsabilidade, demagogia e oportunismo. A associação não é trivial: seu irmão responde a diversos processos e está sob forte pressão judicial, a ponto de muitos avaliarem que certamente deverá enfrentar consequências severas no campo penal. Quando Votorantim repete práticas administrativas que levantam suspeitas, a impressão que fica é a de uma cultura política que normaliza atalhos, despreza o planejamento e aposta na retórica para encobrir “falhas”.
Por fim, como sempre, não se pode ignorar a postura da Câmara Municipal. A omissão diante de um contrato dessa magnitude é prova inequívoca de leniência e apatia. O Legislativo existe para fiscalizar, questionar e, se necessário, barrar atos que contrariem o interesse público. Quando silencia, abdica de sua função constitucional e contribui para a erosão da confiança nas instituições locais. Votorantim merece mais do que improviso e silêncio cúmplice; merece gestão responsável, transparência e respeito com cada centavo destinado às suas crianças.
*Fernando Grecco é empresário.
(Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do jornal)





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