Mora dentro do próprio carro e sonha com um espaço maior
Ademir Pinoti Há oito meses, dois carros estacionados na rua Eronita Pedro de Souza, entre o Jardim Tatiana e o bairro Novo Mundo, em Votorantim, deixaram de ser apenas veículos antigos. Tornaram-se casa.
É ali, em frente ao número 145, que vive Ademir Pinoti, 73 anos, viúvo, conhecido pelos moradores como “Alemão”, apelido que ganhou pelo porte físico e pelos olhos azuis. Com 1,80 metro de altura, ele dorme dentro de uma Parati 1982. Não é difícil imaginar que o espaço apertado esteja longe de ser confortável. Ainda assim, seu Ademir não faz reclamações.
Ao contrário. Quando fala da própria situação, evita qualquer tom de revolta ou autopiedade. Trata a realidade como quem aprendeu a lidar com o que restou. Os carros, seus únicos bens materiais, são mencionados quase com carinho. São abrigo, guarda-roupa, despensa e memória.
No início da conversa, a desconfiança é evidente. Mas basta alguns minutos para que o semblante fechado se transforme em narrativa viva. Seu Ademir se orgulha de ter sido um grande cozinheiro e confeiteiro. E fala com brilho nos olhos sobre a profissão que mais marcou sua trajetória: mecânico de motores de automóveis e caminhões.
“Quando eu era mecânico, tinha crédito em todas as lojas de peças da cidade. Sempre honrei meus compromissos”, diz, mostrando com zelo seus documentos RG, CPF e habilitação. Faz questão de afirmar que tem o nome limpo. Para ele, honra é patrimônio.
Natural de Cambará (PR), chegou à região na década de 1970. Trabalhou na indústria de tecelagem, viu Sorocaba crescer e se orgulha de ter contribuído com esse desenvolvimento. Também guarda como lembrança o período em que prestou serviços para um ex-prefeito sorocabano.
Mas a lembrança que mais o marca é a perda da companheira, vítima de um derrame aos 53 anos. A dor ainda atravessa a fala, mesmo décadas depois.
Morando dentro de um carro há oito meses, seu Ademir recebe ajuda de alguns moradores da região, que o conhecem e respeitam. A vizinha Silmara Lemes afirma que a presença dos veículos estacionados na rua não incomoda a comunidade.
“A vizinhança não se incomoda com os carros. O que nós temos é preocupação. Estamos falando de uma pessoa idosa, praticamente em situação de abandono”, relata.
Ela questiona se não existe algum tipo de acolhimento ou serviço público que possa oferecer orientação ou auxílio. “Será que não há nenhum acompanhamento para um senhor nessa idade?”, indaga.
Em quase uma hora de conversa, seu Ademir demonstra lucidez, memória preservada e nenhuma dependência química. É um homem que fala com clareza, que recorda datas, que reconhece seus erros e acertos e que, acima de tudo, mantém a fé.
Quando questionado sobre o que gostaria para mudar sua situação, não menciona luxo nem conforto exagerado. Fala apenas do desejo de ter um espaço um pouco maior, onde possa se deitar sem precisar encolher as pernas, guardar seus pertences com dignidade e viver com mais tranquilidade.
“Eu sei que um dia vou ser contemplado. Deus sempre esteve ao meu lado”, afirma.
A história de Ademir Pinoti não é apenas sobre alguém que mora dentro do próprio carro. É sobre dignidade silenciosa. Sobre um homem alto demais para o espaço que tem, mas que se recusa a diminuir a própria honra.
Texto e fotos: Werinton Kermes






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