Enchentes: o fracasso da gestão pública que insiste em culpar a chuva
Por Fernando Grecco*
Todo verão, a mesma cena se repete: ruas transformadas em rios, casas invadidas pela água e famílias contabilizando prejuízos. A justificativa oficial é sempre a mesma: “chuvas intensas”. No entanto, atribuir as enchentes apenas ao clima é uma simplificação conveniente que mascara o verdadeiro problema: a incompetência e a negligência da gestão pública. Chuva sempre existiu. O que mudou foi a incapacidade de governos municipais de planejar, investir e executar políticas urbanas eficientes. Em cidades como Votorantim, a população paga o preço de uma administração que parece assistir passivamente ao desastre que ela própria ajuda a produzir.
O primeiro ponto é a ausência de planejamento urbano sério. Quando prefeitos permitem expansão urbana desordenada, impermeabilização excessiva do solo e ocupação de áreas de risco, estão, na prática, preparando o cenário perfeito para enchentes. Grandes cidades do mundo enfrentam volumes de chuva muito superiores aos registrados no Brasil e, ainda assim, conseguem minimizar alagamentos graças a projetos estruturais bem planejados. Sistemas de drenagem modernos, reservatórios subterrâneos e parques de retenção de água fazem parte da rotina urbana em cidades que tratam o problema com responsabilidade.
Outro fator crítico é o abandono da infraestrutura básica. Bueiros entupidos, rios assoreados, galerias pluviais insuficientes e falta de manutenção são sintomas claros de uma administração que prefere remediar crises a preveni-las. Em cidades como Copenhague e Roterdã, governos investiram em soluções inteligentes, como ruas que funcionam como canais temporários de drenagem e espaços urbanos projetados para absorver grandes volumes de água. Não se trata de tecnologia inalcançável, mas de prioridade política, algo que parece inexistente em muitas prefeituras brasileiras.
Nesse contexto, Votorantim se tornou um retrato preocupante de abandono administrativo. Enquanto cidades pelo mundo transformam áreas de risco em parques de retenção e ampliam sistemas de drenagem, o município permanece refém de medidas improvisadas e discursos vazios. A responsabilidade recai diretamente sobre o prefeito e sua gestão, que falham em apresentar planejamento consistente, investimento estrutural ou qualquer visão estratégica para enfrentar um problema previsível e recorrente.
Portanto, é preciso dizer com todas as letras: enchentes não são tragédias naturais inevitáveis, são tragédias administrativas. Quando governos municipais se mostram incapazes de planejar a cidade, investir em infraestrutura e aprender com exemplos internacionais, a água apenas revela o tamanho do descaso público. Culpar a chuva é fácil. Difícil é assumir responsabilidade pela incompetência política que transforma um fenômeno natural em calamidade urbana.
*Fernando Grecco é empresário.
(Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do jornal)





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