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Votorantim,21/03/2026

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    Competência ou Identidade?

    Uma reflexão sobre representação pública e intolerância no debate político de Érika Hilton.


    Competência ou Identidade?

    por Pe. Marcos Ribeiro de Carvalho*

    O recente episódio envolvendo a deputada federal Erika Hilton, filiada ao PSOL, reacendeu no debate público brasileiro uma questão que ultrapassa o caso específico: afinal, a capacidade de representar determinados grupos sociais deve ser medida pela identidade da pessoa ou por sua competência para exercer a função?
    A parlamentar foi designada para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, o que gerou reações intensas nas redes sociais e no debate político. Parte das críticas concentrou-se no fato de Érica Hilton ser uma mulher trans e não mulher biológica. Para esses críticos, uma pessoa que não nasceu biologicamente mulher não poderia representar adequadamente as demandas femininas.
    Esse argumento, porém, revela uma premissa intelectualmente frágil. Em uma sociedade democrática, cargos públicos não devem ser atribuídos ou negados com base em qualquer outra classificação que se queira dar, mas na capacidade dessa pessoa que assumirá, de compreender, articular e defender determinadas pautas pertinentes à função que assume.
    Se aceitarmos a lógica de que somente quem vive determinada condição pode tratar dela (só mulher pode entender mulher ou só casado pode entender casado), chegaríamos a conclusões absurdas: um médico precisaria ter câncer para tratar pacientes oncológicos; um juiz teria que ter sido vítima de todos os crimes para julgá-los; um economista precisaria ter vivido todas as realidades sociais para analisá-las. A competência profissional, intelectual (e podemos acrescentar emocional) sempre foi — e deve continuar sendo — o critério central para avaliar quem está apto a exercer determinadas responsabilidades públicas.
    Nesse sentido, o fato de Erika Hilton ser uma mulher trans não deveria, por si só, constituir impedimento para que ela exerça uma função voltada à representação de mulheres. A possibilidade de nomeação para cargos públicos deve permanecer aberta a qualquer cidadão que demonstre preparo, sensibilidade e capacidade de diálogo com os temas envolvidos.
    No entanto, há um aspecto da discussão que tem sido pouco explorado, talvez porque o debate tenha sido capturado por uma polarização simplista. De um lado, há quem rejeite a deputada exclusivamente por sua identidade de gênero — postura que frequentemente deriva de preconceito e hostilidade. De outro, há setores que respondem com igual radicalidade, classificando automaticamente qualquer crítica a ela como transfobia ou intolerância. Esse cenário cria um ambiente em que a avaliação objetiva da atuação pública se torna quase impossível.
    A questão mais relevante, e que deveria ocupar o centro da reflexão pública, diz respeito à postura política e ao estilo de atuação de qualquer pessoa que assume uma função de representação. No caso da parlamentar Érika Hilton, que pretende dialogar com uma pauta ampla e complexa como a das mulheres, espera-se uma capacidade elevada de escuta, abertura ao debate e disposição para conviver com divergências. Contudo isso não acontece. Críticas recorrentes feitas à própria deputada apontam para um comportamento da mesma frequentemente marcado por forte confrontação nas redes sociais, linguagem polarizada e pouca disposição para acolher questionamentos vindos de quem pensa de forma diferente. Termos e
    classificações que reduzem interlocutores a categorias ideológicas ou identitárias podem dificultar o diálogo público que se espera de representantes institucionais.
    Uma das publicações mais repercutidas foi uma resposta direta às críticas feitas à sua eleição: “Podem espernear. Podem latir. Eu sou a presidenta da Comissão da Mulher.” Essa frase viralizou nas redes sociais e foi interpretada por críticos como um exemplo de linguagem agressiva dirigida aos opositores. Entre outras falas da mesma, presentes em suas redes sociais.
    Esse é o ponto que deveria realmente ser discutido. Representar um grupo social, especialmente em uma democracia plural, exige mais do que identificação com determinadas causas ou pela escolha ideológica-política, exige maturidade política, disposição para ouvir críticas e capacidade de construir pontes entre visões diferentes da sociedade. Uma liderança pública não pode agir apenas como porta-voz de um segmento ideológico específico, mas como mediadora de perspectivas diversas, pela capacidade de promover diálogo, formular políticas consistentes e lidar com a complexidade social que caracteriza a democracia.
    O episódio revela, na verdade, algo mais profundo sobre o momento que vivemos. O debate público brasileiro tem se tornado cada vez mais marcado pela lógica da polarização (ou se é da extrema direita ou da extrema esquerda). Critica-se alguém não pelo que diz ou faz, mas por quem é ou pelo grupo ao qual pertence. Assim, substitui-se a análise racional pela reação identitária. O resultado é um ambiente em que todos perdem.
    Quando transformamos o outro em inimigo — seja por votar diferente, torcer diferente, crer diferente ou pensar diferente — deixamos de reconhecer que a pluralidade de ideias é precisamente o que sustenta a vida democrática. Nenhuma sociedade madura se constrói sobre o silenciamento de quem pensa diferente.
    Talvez o verdadeiro aprendizado desse episódio seja um convite para nós, para que tenhamos autocrítica coletiva. Precisamos reaprender a discutir ideias sem demonizar pessoas, avaliar competências sem recorrer a preconceitos e criticar posições sem transformar adversários em inimigos.
    Se o debate público brasileiro conseguir dar esse passo, episódios como este deixarão de ser apenas mais um capítulo da guerra ideológica para se tornar uma oportunidade de amadurecimento democrático — algo de que o país, sem dúvida, necessita, principalmente nesse ano eleitoral.

    Padre Marcos Ribeiro de Carvalho é pároco da Paróquia São João Batista e Imaculada Conceição de Votorantim.

    (Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do jornal)





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