EDITORIAL - A farda não pode ser escudo para a violência
Há algo preocupante e cada vez mais visível no comportamento de parte da sociedade: a naturalização da violência quando ela parte de quem veste uma farda.
Sempre que um caso de violência policial vem à tona, não faltam vozes prontas para justificar, relativizar ou até aplaudir. Argumentos se repetem: “nenhum policial sai de casa para matar”, “é preciso entender o contexto”, “a vítima deve ter feito algo”. A lógica é perigosa e seletiva.
Recentemente, o caso de um policial de baixa patente, envolvido na morte do vidraceiro Anderson, voltou a expor esse fenômeno. Mais do que o episódio em si, chama atenção o comportamento de quem, mesmo diante da gravidade, escolhe defender o agente. O mesmo policial, agora, pede indenização à família da vítima, alegando ter sido ofendido por manifestações nas redes sociais.
Diante da gravidade do caso, a Gazeta de Votorantim realizou um levantamento aprofundado sobre a vida social, profissional e familiar de Anderson. A apuração não encontrou qualquer envolvimento do jovem com práticas ilícitas, delitos ou antecedentes criminais. Ao contrário, o que se revela é a trajetória de um trabalhador, inserido em seu meio social, sem registros que justifiquem ou relativizem a violência que sofreu.
Mas é preciso ir além de um único caso.
O país também acompanhou o episódio envolvendo um oficial de alta patente um tenente-coronel acusado de matar a própria esposa e tentar sustentar a versão de suicídio. Antes do crime, mensagens atribuídas a ele revelavam uma visão de mundo baseada em controle, dominação e hierarquia absoluta dentro da própria casa.
Diante desses dois casos um envolvendo um agente de menor patente e outro um oficial de alto escalão cabe uma pergunta inevitável:
Alguém realmente acredita que esse comportamento ficava restrito ao ambiente doméstico?
Alguém duvida que um servidor público que se via como autoridade absoluta dentro de casa também reproduzia essa lógica com seus subordinados? Ou mesmo no trato com a população?
A questão central não é a patente. Não é o cargo. É a mentalidade.
Quando se normaliza a ideia de que a autoridade está acima do limite, abre-se espaço para abusos dentro e fora da farda. E quando a sociedade aplaude, silencia ou justifica, ela deixa de ser apenas espectadora e passa a ser parte do problema.
É preciso deixar claro: a Polícia Militar é formada por homens e mulheres que, em sua maioria, honram sua missão. Mas é justamente por respeito a esses profissionais que não se pode aceitar desvios como regra, nem transformá-los em espetáculo ou justificativa.
Violência não pode ser relativizada. Autoridade não pode ser confundida com poder absoluto.
A farda deve proteger nunca intimidar, dominar ou ferir.
E toda vez que alguém aplaude o excesso, abre-se um precedente perigoso: o de que a violência, desde que venha “do lado certo”, pode ser tolerada.





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