Improviso, escândalos e complacência institucional
Por Fernando Grecco*
Há administrações que tropeçam; outras, contudo, parecem empenhar-se em transformar o tropeço em método. Em Votorantim, o atual governo municipal, ainda em seus primeiros 15 meses, incompletos, convém sublinhar, já ostenta a espantosa marca de 13 secretários substituídos. Não se trata de mero detalhe burocrático, mas de sintoma eloquente de uma gestão que, longe de consolidar-se, dissolve-se em sua própria inconsistência. A rotatividade vertiginosa no primeiro escalão não revela dinamismo, mas desorientação, uma espécie de dança caótica em que os cargos giram mais rápido do que as soluções aparecem.
O cenário beira o caricatural, não fosse trágico. Uma administração que deveria primar pela estabilidade técnica e pelo planejamento estratégico apresenta-se como um laboratório improvisado, onde decisões são tomadas ao sabor das circunstâncias, sem lastro em critérios sólidos. O resultado é uma governança errática, que parece confundir gestão pública com ensaio geral de amadorismo. Em tal ambiente, o interesse coletivo sucumbe à desordem, e a máquina pública passa a operar sob o signo da improvisação, ou, em termos menos benevolentes, da incompetência reiterada.
Como se não bastasse a instabilidade administrativa, acumulam-se relatos inquietantes de escândalos e indícios de irregularidades. Licitações questionáveis e contratos emergenciais de conveniência duvidosa surgem como sombras persistentes sobre a atual gestão. Tais práticas, quando reiteradas, deixam de ser exceção para insinuar um padrão, e um padrão que, no mínimo, merece investigação rigorosa. No entanto, o que se observa é um silêncio constrangedor, quase cúmplice, por parte das instâncias que deveriam exercer o controle e a fiscalização.
A Câmara Municipal, nesse contexto, tem desempenhado um papel que oscila entre a inércia e a conivência. Ao não apurar com a devida diligência os indícios de irregularidades, o Legislativo abdica de sua função primordial de guardião da legalidade e do interesse público. Tal complacência não apenas fragiliza a democracia local, como legitima, por omissão, uma administração cuja performance já se encontra aquém do tolerável. O que deveria ser vigilância transforma-se em anuência tácita, um espetáculo de baixo meretrício institucional, no qual princípios republicanos são negociados em silêncio.
É oportuno recordar as palavras de Erasmo de Roterdã, que, em sua sátira mordaz, já advertia sobre os perigos da insensatez quando alçada ao poder. Em Votorantim, a insensatez parece ter encontrado terreno fértil, alimentada tanto pela incapacidade administrativa quanto pela falta de freios institucionais eficazes. A crítica, aqui, não é mero exercício retórico, mas um chamado à responsabilidade: governar exige mais do que boa vontade; requer competência, transparência e compromisso inequívoco com a coisa pública.
Ao final, resta à população o ônus de uma gestão que falha em entregar o básico e de instituições que falham em corrigir o rumo. Se nada mudar, Votorantim corre o risco de transformar a exceção em regra, e o improviso em doutrina. E, como a história tantas vezes demonstrou, administrações que se sustentam na instabilidade e na complacência dificilmente deixam outro legado que não o da frustração coletiva.
*Fernando Grecco é empresário.
(Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do jornal)





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