CRÔNICA DA SEMANA - Jessiel Veloso: o homem que conversa com as memórias de Votorantim
Jessiel Veloso Existem pessoas que passam pela cidade. Outras pertencem a ela. E existem aquelas que ajudam a cidade a não esquecer de si mesma.
Jessiel Veloso é uma dessas pessoas.
Natural de Ourinhos, ele chegou ainda jovem na região com a família carregando sonhos simples, como tantas outras famílias do interior paulista: trabalhar, construir a vida e encontrar oportunidades. Foi em Votorantim, porém, que criou raízes, formou família, fez amizades e descobriu algo que talvez nem imaginasse procurar: a memória afetiva de um povo.
Enquanto muita gente passa correndo pelas ruas sem perceber os detalhes, Jessiel olha para Votorantim como quem folheia um álbum de fotografias antigas. Ele enxerga histórias onde muitos veem apenas objetos esquecidos. Uma máquina de escrever, um telefone de fichas, uma fotografia amarelada, uma fita VHS antiga ou um pedaço da linha férrea carregam para ele mais do que ferrugem e poeira. Carregam vidas.
Talvez por isso sua paixão pela história tenha começado justamente nos trilhos do trem. A antiga linha férrea de Votorantim não representa apenas transporte ou desenvolvimento industrial. Representa movimento humano. Gente chegando, partindo, trabalhando, construindo famílias e ajudando a formar a identidade de uma cidade que ainda é jovem diante de tantos municípios da região.
Jessiel não guarda apenas objetos. Guarda emoções.
Quase tudo que chega às suas mãos vem acompanhado de histórias. Um neto que entrega um projetor antigo do avô. Uma família que doa fitas VHS gravadas décadas atrás. Pessoas que, antes de entregarem uma peça antiga, contam suas lembranças com os olhos marejados. E talvez esteja aí o verdadeiro valor do trabalho que ele realiza silenciosamente pelas redes sociais.
Em tempos de vídeos rápidos, memórias curtas e informações descartáveis, Jessiel usa justamente a internet para fazer o contrário: desacelerar o tempo. Seus perfis nas redes sociais se transformaram em uma espécie de praça pública digital onde moradores reencontram sua própria história. Jovens descobrem como era a cidade décadas atrás. Antigos moradores se reconhecem em fotografias das festas juninas, dos carnavais do Clube Atlético Votorantim ou das antigas ruas ainda sem as marcas da modernidade.
Cada publicação desperta algo diferente. Saudade para uns. Curiosidade para outros. Emoção para quase todos.
E talvez o mais bonito em Jessiel seja justamente sua simplicidade. Ele não fala como pesquisador distante. Fala como alguém que ama a cidade de forma genuína. Quando cita lugares que deveriam ser “tombados emocionalmente”, não está preocupado apenas com paredes antigas, mas com aquilo que elas representam para quem viveu ali.
Ao defender a preservação da memória da linha férrea, das casas operárias, das antigas fábricas e das histórias dos pioneiros, Jessiel parece lembrar uma coisa importante: cidades não são feitas apenas de concreto. São feitas de pessoas.
Pessoas como o médico José Garcia da Costa, lembrado com carinho pela população. Pessoas como Clara Inês Clemente Del Moral, que dedicou parte da vida ao trabalho social. Pessoas simples, anônimas muitas vezes, mas fundamentais na construção silenciosa de Votorantim.
Jessiel entende algo que poucos compreendem: quando uma cidade perde sua memória, perde também parte de sua identidade.
Por isso, talvez ele não seja apenas um colecionador. Nem apenas um apaixonado por antiguidades. Jessiel Veloso é, acima de tudo, um guardião de lembranças.
Daqueles que ajudam Votorantim a continuar reconhecendo a própria alma mesmo diante da pressa do tempo.
E, no fundo, talvez seja exatamente isso que ele tente ensinar às novas gerações todos os dias através de suas publicações: que nenhuma cidade sobrevive apenas do futuro quando esquece de valorizar o próprio passado.
Por Werinton Kermes
Fotos: Arquivo pessoal






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