Crônica da semana: Álvaro Latance e a cidade que ainda mora dentro dele
Fonte: Werinton Kermes
Werinton Kermes
Werinton Kermes Algumas pessoas carregam Votorantim no endereço. Outras carregam Votorantim na memória. Álvaro Latance carrega nos dois.
Nascido e criado na Barra Funda, quando o bairro ainda tinha cheiro de café passado cedo, de terra molhada e de roupa de operário estendida no varal, Álvaro cresceu em uma cidade que parecia caber inteira dentro de um abraço.
Naquela Votorantim de poucas ruas e muitos conhecidos, ninguém precisava de aplicativo para saber das notícias. Bastava sentar-se na calçada. E, se fosse muito cedo, bastava ouvir os passos de dona Terezinha.
Sua mãe acordava às três e meia da madrugada e saía batendo de porta em porta para despertar os trabalhadores da fábrica. Era um despertador humano, sem pilha e sem botão de soneca. Quando dona Terezinha passava, não tinha operário que continuasse dormindo.
A cidade acordava junto.
Álvaro lembra também dos cavalos da família Machado, dos animais da família Oliveira e das figuras que marcaram uma época em que as pessoas eram conhecidas mais pelos apelidos do que pelos sobrenomes. Recorda do cabeleireiro conhecido como "Ignorante", personagem daqueles que só cidades do interior conseguem produzir. Daquelas figuras que, décadas depois, continuam arrancando risadas de quem se lembra delas.
A infância tinha ainda o sabor do leite fresco. Todas as manhãs ele ia buscar leite na propriedade do senhor Murtinheira, um português que mantinha sua vaca numa chácara próxima ao que hoje é apenas mais um pedaço da cidade urbanizada. Era um tempo em que o leite não vinha em caixinha e a confiança não precisava de contrato.
Filho de uma família numerosa, com sete irmãos dividindo poucos cômodos, Álvaro aprendeu cedo que riqueza e felicidade nem sempre moram na mesma casa. Faltava espaço, sobrava afeto.
Mais tarde vieram os estudos, a faculdade, a contabilidade, a administração e, quase sem perceber, a política entrou em sua vida. Entrou para ficar.
Em 1981 recebeu o convite para trabalhar na Prefeitura. O que parecia ser apenas uma oportunidade transformou-se em uma trajetória de décadas de dedicação ao serviço público. Vieram os mandatos de vereador, a vice-prefeitura e uma coleção de histórias que só quem vive a política de perto consegue acumular.
Mas, curiosamente, quando fala da própria trajetória, Álvaro parece se emocionar mais ao lembrar das pessoas do que dos cargos.
Fala dos amigos. Dos vizinhos. Dos prefeitos que admirou. Dos trabalhadores que conheceu. Da associação filantrópica que ajudou a manter viva por décadas, emprestando cadeiras de rodas, apoiando famílias e oferecendo ajuda a quem mais precisava.
Talvez porque ele saiba que os cargos passam. As pessoas ficam.
Ao olhar para Votorantim hoje, ele reconhece uma cidade maior, mais movimentada e mais complexa. Mas confessa sentir saudade daquela cidade de vinte mil habitantes, onde praticamente todo mundo se conhecia e os problemas pareciam caber numa conversa de esquina.
Nem por isso perdeu a esperança.
Quando fala dos jovens, sua mensagem é direta: estudar, aprender, crescer. Não porque a vida seja fácil, mas justamente porque nunca foi.
E quando a conversa parece chegar ao fim, surge a pergunta mais difícil: do que Álvaro Latance se arrepende?
A resposta vem simples, sincera e desarmada:
"De tudo aquilo que deixei de fazer por mim para me dedicar aos outros."
Talvez esteja aí o segredo de sua história.
Enquanto muita gente passa a vida tentando juntar bens, Álvaro parece ter passado a vida colecionando pessoas.
E é por isso que, ao ouvir suas lembranças da Barra Funda, dos operários, dos cavalos, das madrugadas de dona Terezinha e da velha Votorantim que mora dentro dele, fica a sensação de que algumas cidades não desaparecem.
Elas apenas mudam de endereço.
Passam a morar na memória de quem ajudou a construí-las.
Texto e foto: Werinton Kermes





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