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Votorantim,13/06/2026

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    Crônica da Semana - Votorantim tem memória. E ela atende pelo nome de César da Folha

    Fonte: Werinton Kermes
    Crônica da Semana - Votorantim tem memória. E ela atende pelo nome de César da Folha César da Folha

    Há pessoas que medem a vida pelos aniversários. Outras pelos empregos que tiveram ou pelos lugares que conheceram. César poderia medi-la pelas manchetes que publicou.

    São quase cinco décadas transformando acontecimentos em memória, notícias em história e páginas de jornal em patrimônio afetivo de uma cidade inteira.

    Votorantim tem 63 anos de emancipação política. A Folha de Votorantim caminha para completar 50. Isso significa que durante a maior parte da existência desta cidade houve um homem observando, ouvindo, registrando e preservando sua história.

    Seu nome é José Antonio Rodrigues.

    Mas Votorantim aprendeu a chamá-lo simplesmente de César da Folha.

    Antes do jornalista veio o menino.

    Filho de operários do bairro Santa Rosália, em Sorocaba, nasceu numa época em que a infância tinha menos brinquedos e mais responsabilidades. Como milhares de jovens de sua geração, aprendeu cedo que a vida era feita de trabalho. Ainda criança ajudava o pai no armazém da família. Vendeu doces pelas ruas, trabalhou em farmácia, costurou solas de sapato, foi cobrador de ônibus, operário têxtil.

    Aos dezesseis anos perdeu o pai. E quando a morte bateu à porta da família, a adolescência precisou sair pela janela. Os sonhos foram adiados. As responsabilidades chegaram antes do tempo. Mas há pessoas que parecem nascer com uma capacidade extraordinária de transformar dificuldades em combustível.

    José Antonio era uma delas. E foi justamente nessa época que nasceu César.

    Não o jornalista. O apelido.

    Durante uma apresentação escolar organizada pela professora Tita Carvalho, o garoto recebeu o papel de um imperador romano chamado César. A peça terminou. Os aplausos acabaram. Mas o nome ficou. Primeiro entre os colegas. Depois entre os amigos. Mais tarde nas redações. Nos estúdios de rádio. Nas ruas.

    Com o passar dos anos, César tornou-se tão natural que muita gente passou a desconhecer o José Antonio que existia por trás dele. Talvez exista uma bonita ironia nisso. O menino que interpretou um personagem da História acabaria dedicando a própria vida a registrar a história dos outros. 

    O jornalismo surgiu como vocação. Primeiro como colaborador. Depois como repórter. Vieram as coberturas policiais. As pautas políticas. As transmissões esportivas. O rádio. Os jornais. As madrugadas de trabalho. As máquinas de escrever. As redações movimentadas. Os fatos acontecendo diante de seus olhos. Mas o destino ainda lhe reservava um encontro especial. O encontro com Votorantim. Há cidades que acolhem. Outras adotam. Votorantim fez as duas coisas. Foi amor à primeira vista.

    E dos amores verdadeiros nasceu um sonho. Em 1977, ao lado do jornalista Celso Ribeiro, o Marvadão, José Antonio Rodrigues resolveu fazer algo que parecia impossível: fundar um jornal moderno numa cidade que ainda construía sua identidade.

    Não havia recursos. Não havia investidores. Não havia garantias. Havia apenas coragem. E coragem, às vezes, vale mais do que dinheiro. Assim nasceu a Folha de Votorantim. Numa noite chuvosa de dezembro de 1977, enquanto a cidade comemorava mais um aniversário de emancipação, nascia também um dos mais duradouros capítulos de sua história.

    Poucos imaginavam que aquele semanário sobreviveria ao tempo. Menos ainda imaginavam que se transformaria num dos maiores patrimônios documentais da cidade. Vieram as crises econômicas. Vieram as dificuldades financeiras. Vieram os períodos em que manter o jornal funcionando parecia um ato de teimosia. Vieram noites sem dormir. Vieram preocupações. Vieram obstáculos que fariam muitos desistirem. Mas César permaneceu. E a Folha também. Porque alguns projetos deixam de ser negócios. Transformam-se em missão.

    Década após década, Votorantim crescia. E César estava lá. Viu bairros nascerem. Viu avenidas surgirem. Viu fábricas ampliarem seus muros. Viu administrações começarem e terminarem. Viu vereadores chegarem e partirem. Viu prefeitos assumirem o comando da cidade. Viu campanhas eleitorais. Viu inaugurações. Viu festas. Viu conquistas. Viu despedidas. Mais do que assistir à história, ele a testemunhou. Mais do que testemunhar, ele a registrou. Mais do que registrar, ajudou a preservá-la. Ao longo desses quase cinquenta anos, ouviu histórias que foram publicadas. Mas ouviu muitas outras que jamais chegaram ao papel. Conversas reservadas. Confidências. Bastidores. Segredos. Relatos guardados apenas na memória de quem aprendeu que nem tudo o que se sabe precisa ser escrito.

    Foi amigo de prefeitos. Conselheiro de muitos. Fonte de consulta para incontáveis pessoas. Foi amado por alguns. Criticado por outros. Mas respeitado por praticamente todos. Porque a credibilidade não nasce da unanimidade. Nasce da coerência. A redação da Folha recebeu governadores, deputados, senadores, empresários, artistas e até futuros presidentes da República. Mas talvez a maior riqueza daquele jornal nunca tenha sido quem entrava pela porta da frente.

    A verdadeira riqueza sempre foram as histórias do povo. As histórias das pessoas comuns. As histórias que formam a alma de uma cidade. Ao longo da caminhada vieram homenagens. Vieram títulos. Vieram medalhas. Veio a honraria de Comendador. Mas talvez seu maior reconhecimento não esteja pendurado em nenhuma parede. Talvez esteja espalhado pelas ruas de Votorantim. Na confiança de seus leitores. No respeito de gerações. No carinho de quem cresceu vendo a Folha chegar todas as semanas.

    Se Votorantim pudesse escrever uma carta de agradecimento, certamente começaria com o nome de José Antonio Rodrigues. Porque durante quase meio século, quando a cidade viveu seus dias mais importantes, suas alegrias, suas conquistas e até suas dores, havia um homem atento, com um bloco de anotações na alma e um jornal nas mãos, garantindo que nada fosse esquecido. Existem homens que constroem prédios. Outros constroem empresas. Alguns constroem fortunas. César construiu memória.

    E não existe patrimônio mais valioso para uma cidade do que a lembrança de quem ela foi. Porque o tempo passa. Os governos passam. As gerações passam.

    Os acontecimentos passam. Mas alguém precisa permanecer para contar a história.

    Alguém precisa guardar as pegadas. Alguém precisa impedir que o esquecimento vença. Durante quase cinquenta anos, esse alguém foi César. O menino operário tornou-se jornalista. O jornalista tornou-se referência. A referência tornou-se patrimônio. E o homem transformou-se em parte inseparável da própria história que ajudou a escrever. Porque os jornais envelhecem. O papel amarela. A tinta desaparece. Mas aqueles que dedicam a vida a preservar a memória de um povo encontram uma forma rara de eternidade. Permanecem vivos nas lembranças. Nas fotografias. Nas manchetes. Nas histórias. E na gratidão silenciosa de uma cidade inteira.

    Obrigado, César.

    Porque Votorantim tem memória. E ela atende pelo nome de César da Folha.


    Por Werinton Kermes





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