Crônica da Semana - Carlos Nascimento, patrimônio afetivo de Votorantim
Carlos Nascimento Toda cidade tem seus personagens. Aqueles que não precisam de cargo público, placa de homenagem, fotografia em gabinete ou título em sessão solene para serem conhecidos. Basta aparecerem na rua, sentarem em uma praça ou puxarem conversa em uma conveniência para que alguém logo diga: "Esse aí eu conheço".
Em Votorantim, um desses personagens atende pelo nome de Carlos Nascimento. Ou Carlão, para os mais chegados. E, em se tratando de Carlos, quase todo mundo é chegado.
Morador do Parque Bela Vista, Carlão tem uma localização privilegiada. Seu quarto faz divisa, parede com parede, com a Conveniência Açoriana. Há quem diga que, se alguém espirra de um lado, do outro já vem um "saúde". Verdade ou não, o fato é que Carlos se tornou parte da geografia afetiva do bairro. Ele não mora apenas no Parque Bela Vista. Ele compõe o bairro.
Aos 61 anos, Carlos vive hoje de memórias. E que memória. Seus passos podem estar mais lentos, o caminhar pode ser curto, cuidadoso, no ritmo de quem já atravessou muita estrada, mas a lembrança continua ligeira. Ele recorda detalhes de 50 anos atrás como se o fato tivesse acontecido na tarde anterior. Nome, lugar, conversa, rosto, cheiro de comida, quem estava junto, quem chegou depois e até quem saiu sem pagar a conta, se bobear.
Sua trajetória daria um livro. Antes de criar raízes em Votorantim, cidade que adotou há mais de 30 anos, Carlos já havia morado em outras 36 cidades. E não, seu pai não era dono de circo. Mas, segundo ele, fazia malabarismos dignos de picadeiro para manter a família unida e colocar comida na mesa. Entre mudanças, estradas de terra, caminhões improvisados e novos recomeços, a família foi colecionando endereços até que Votorantim se tornou a cidade número 37.
Nascido em São Miguel Arcanjo pelas mãos da parteira Dona Maestrina, Carlos cresceu entre seis irmãos. Aos 14 anos, viu o pai tirá-lo da escola para trabalhar na roça. A vida, naquela época, não perguntava muito o que o menino queria ser quando crescesse. Simplesmente colocava uma enxada na mão e dizia: "Vamos lá".
Mas Carlos foi. Foi para a roça, foi para a vida e foi aprendendo. Foi borracheiro, garçom, vendedor de publicidade, trabalhou no antigo Bebiricando, ao lado do Posto Cortesia, comprou horário na extinta Rádio Meridional do então deputado Theodoro Mendes e chegou a ser proprietário de uma fábrica de brindes. Trabalhou muito, caiu algumas vezes, levantou outras tantas e seguiu em frente, sempre com uma história nova para contar.
Ao longo da caminhada, colecionou amizades que guarda como patrimônio. Quando começa a recordar o passado, os nomes surgem rápido: Marcílio Bananeiro, Miguel Brasil, Sandoval, Dito Óleo e tantos outros que fizeram parte de sua vida e da história popular da cidade.
Uma das figuras que ele recorda com carinho é o ex-prefeito Jair Cassola. "Cassola não me julgava pelo meu estado. Julgava pelo que eu me propunha a fazer e fazia."
A frase talvez explique muito sobre Carlos. Pouca gente em Votorantim desconhece sua relação antiga e difícil com a bebida. E o mais curioso é que ele nunca tentou esconder isso. Carlão não é homem de fazer pose. Não tenta vender uma imagem que não tem. Ele é o que é, com suas virtudes, tropeços, risadas e lembranças.
Conta que só começou a beber depois da morte do pai, quando já tinha 33 anos. A perda abriu um vazio que ele tentou preencher do jeito errado, e ele sabe disso. Reconhece que a bebida faz mal, principalmente para a saúde, e fala sobre o assunto sem rodeios.
Hoje, com seu humor característico, costuma dizer: "Não frequento mais bar."
A pausa vem no tempo certo, como bom contador de causos. "Só bebo em casa."
E a gargalhada aparece antes mesmo de terminar a frase.
Mas, para esta crônica, o gole da conversa foi outro. Nada de pinga, nada de cachaça. Entre uma lembrança e outra, o que abasteceu a prosa foi café, tomado ali mesmo, na sua vizinha Açoriana. Café forte, conversa comprida e piada curta no meio da frase, como só Carlão sabe fazer.
Porque Carlos tem isso. É pessoa de riso fácil. No meio de uma conversa longa, solta uma piada rápida, daquelas que chegam sem aviso, quebram a seriedade e fazem todo mundo rir. Ele fala da dureza da vida, mas sem transformar a vida em velório. Fala das quedas, mas com a leveza de quem aprendeu a levantar. Fala do passado como quem visita um álbum de família, mesmo que algumas fotos estejam amassadas.
Entre as memórias mais afetivas estão o pai e a mãe. O pai, símbolo de luta, trabalho e esforço. A mãe, abrigo seguro, proteção e alento. Carlos lembra dela com uma ternura especial. Era ela quem o protegia, dava colo, dava palavra boa e, muitas vezes, dava alento mesmo quando o filho, no lugar de alento, talvez merecesse umas boas palmadas, como ele mesmo brincaria.
Essa mistura de amor, bronca e proteção formou boa parte do que Carlos carrega hoje. Quem o conhece sabe que existe ali um homem sensível, generoso, de conversa fácil e sem maldade. "Eu sou o que sou, mas não faço mal para ninguém."
A frase vem simples, direta, sem enfeite. E talvez seja por isso que tanta gente o respeita. Carlos pode ter seus excessos, seus erros e suas teimosias, mas não carrega veneno. Não é homem de perseguir, atrapalhar ou desejar mal.
Outra frase que costuma repetir parece saída de um livro de filosofia escrito em mesa de bar, ou melhor, neste caso, em mesa de café: "Quem faz mal para a gente é a própria gente."
Casado aos 23 anos, pai de três filhos, ele afirma que seu maior orgulho continua sendo a família e a memória dos pais. Quando fala da infância, os olhos brilham ao lembrar das visitas à casa da avó e da comida preparada no fogão a lenha. Para alguns, isso pode parecer pouco. Para Carlos, é fortuna.
E se alguém resolve perguntar sobre o significado da vida, a resposta vem pronta: "A vida é um processo contínuo de aprendizado. Como sempre vivi com dificuldade, aprendi até demais."
Depois ele ri da própria conclusão, como quem sabe que a vida não foi fácil, mas também não pretende entregar a ela o prazer da reclamação eterna.
Quando o assunto é o fim da jornada, também não perde o bom humor: "As homenagens têm que ser em vida. Na lápide pode escrever: Fui! Quem aproveitou, aproveitou."
E está certo o Carlão. Homenagem boa é aquela que a pessoa escuta. Depois, vira discurso para os outros. Por isso, falar de Carlos em vida é reconhecer que Votorantim é feita também desses personagens que não entram nos livros oficiais, mas permanecem na memória do povo.
Quem estiver com saudade de Carlos Nascimento não precisa procurar muito. Basta aparecer pela manhã na Praça dos Expedicionários. Nos dias frios de inverno, é quase certo encontrá-lo tomando sol, aquecendo o corpo, encurtando os passos, alongando as histórias e distribuindo lembranças para quem tiver tempo de ouvir.
Porque Votorantim não é feita apenas de ruas, prédios, praças e avenidas. Votorantim também é feita de gente. Gente simples, contraditória, engraçada, sofrida, generosa e verdadeira.
E poucos representam tão bem essa mistura quanto Carlos Nascimento, o Carlão do Parque Bela Vista, vizinho da Açoriana, contador de histórias, guardião de memórias e patrimônio afetivo de uma cidade que sabe rir de si mesma.
Um homem que carrega suas fragilidades, como todos nós, mas que nunca deixou de ser absolutamente autêntico.
Por Werinton Kermes





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