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Votorantim,26/06/2026

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    Opinião: O custo de existir: por que o Orgulho LGBTQIA+ não é sobre privilégio, é sobre sobrevivência


    Opinião: O custo de existir: por que o Orgulho LGBTQIA+ não é sobre privilégio, é sobre sobrevivência


    Por Ronaldo Pires*


    Todo ano, a chegada do mês de junho traz consigo uma pergunta que, para muitos, ainda parece um questionamento legítimo: “Se existe o mês do Orgulho LGBTQIA+, por que não existe o dia do orgulho heterossexual?”. À primeira vista, a indagação pode parecer uma busca por igualdade. Na realidade, ela revela um profundo desconhecimento sobre o peso que as estruturas sociais impõem a identidades historicamente marginalizadas.

    A resposta para essa pergunta é tão direta quanto necessária: não existe um dia do orgulho heterossexual simplesmente porque essa é uma identidade que as pessoas nunca precisaram sofrer para que pudesse existir.

    É evidente que o sofrimento é uma condição universal. Pessoas heterossexuais enfrentam crises financeiras, desilusões amorosas, lutos e dores existenciais. A vida é difícil para todos. No entanto, há uma diferença crucial entre sofrer na vida e sofrer por causa de quem você é. Ninguém é demitido, agredido na rua ou expulso de casa pelo fato de ser heterossexual. A “heterofobia” não existe porque não há um sistema institucionalizado que puna a heterossexualidade.

    Para entender o verdadeiro significado da palavra “Orgulho” nesse contexto, basta olhar para a mesa de um almoço de domingo. Quem é heterossexual nunca precisou passar semanas em vigília, tomado pela angústia e pelo medo da rejeição, para olhar nos olhos dos pais e dizer, entre lágrimas: “Pensei muito, refleti, e preciso assumir que sou hétero”. Esse almoço de domingo nunca aconteceu na vida de uma pessoa heterossexual.

    Para a população LGBTQIA+, porém, esse cenário não é uma hipótese; é uma memória real, muitas vezes dolorosa, que se repete em vários momentos da vida na família, na escola, no mercado de trabalho.

    Portanto, orgulhar-se de uma identidade que já nasce acolhida por uma estrutura de privilégios seria, no mínimo, uma redundância arrogante. É o equivalente a celebrar o esforço zero. Por outro lado, para uma pessoa LGBT que construiu uma trajetória a partir do preconceito e das violências diárias, afirmar-se publicamente é um ato de coragem heróica. Existe um custo muito alto para assumir quem se é para si mesmo e para os outros.

    O conceito de “Orgulho”, portanto, ganha um sentido profundamente político e terapêutico. Ele não celebra a superioridade, mas funciona como o antídoto exato para a vergonha e a culpa que a sociedade tenta injetar nessas pessoas desde a infância. O Orgulho reposiciona o indivíduo: transforma o que o mundo apontava como um desvio negativo em uma força afirmativa.

    Celebrar o Orgulho LGBTQIA+ é, acima de tudo, reivindicar o direito elementar de existir publicamente, de amar sem esconderijos e de ocupar o mundo de cabeça erguida. Por isso, a mensagem final deste mês não é para quem assiste de fora, mas para quem vive essa jornada na pele: nunca peçam desculpas por serem quem são.

    A sua existência não é um erro, não é um fardo e não é motivo de vergonha. Cada passo dado em direção à sua verdade, mesmo sob o peso do preconceito, é uma vitória histórica. Vocês herdaram a coragem daqueles que abriram os caminhos no passado e carregam o direito legítimo de serem felizes, inteiros e livres no presente.

    Que o Orgulho seja o escudo contra o medo e o combustível para seguir adiante. Ocupem as salas, as universidades, os mercados de trabalho e as ruas. Vocês pertencem a esses espaços. Enquanto o mundo exigir um custo alto para que minorias simplesmente existam, o Orgulho continuará sendo o nosso manifesto urgente de sobrevivência  e a prova viva de que o amor e a verdade sempre vencem a barbárie. Existam, resistam e orgulhem-se. Vocês não estão sós.


    *Ronaldo Pires é Coordenador Geral da Parada LGBTQIA+ de Sorocaba e Votorantim e militante dos direitos humanos.


    (Os artigos assinados não representam, necessariamente, a opinião do jornal)





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