Crônica da Semana - Adolfo Frioli: O homem que conversava com o tempo
Fonte: Werinton Kermes
Adolfo Frioli




Adolfo Frioli Adolfo Frioli: O homem que conversava com o tempo
Há cidades que preservam seus prédios. Outras preservam seus monumentos. Votorantim teve a felicidade de encontrar alguém que resolveu preservar aquilo que o tempo quase sempre leva embora: a sua memória. Esse homem chama-se Adolfo Frioli.
Se hoje conseguimos enxergar a Votorantim dos operários da fábrica, das ruas de terra, da velha Companhia Votorantim, das famílias que construíram esta cidade, dos primeiros comércios, das festas religiosas, dos personagens anônimos, das fotografias esquecidas em gavetas e das histórias contadas pelos mais antigos, muito disso passou, em algum momento, pelas mãos cuidadosas de Adolfo Frioli.
Suas primeiras lembranças de Votorantim nasceram ainda na infância. Quando tinha cerca de cinco anos de idade, acompanhava o pai, operário da fábrica têxtil da Companhia Votorantim, e observava o cotidiano de uma cidade que crescia ao redor das chaminés, do trabalho e das famílias que construíam seu futuro.
Talvez tenha sido ali que nasceu um amor silencioso por Votorantim. Um amor que não precisava de discursos. Precisava de dedicação.
Embora tenha construído sua vida familiar, profissional e acadêmica em Sorocaba, Adolfo nunca rompeu os laços afetivos com Votorantim. Pelo contrário. Compreendeu muito cedo que a história das duas cidades caminhava lado a lado e que preservar a memória de uma significava também compreender a formação da outra.
Enquanto muitos viam apenas fotografias antigas, Adolfo enxergava vidas.
Enquanto outros guardavam documentos em caixas, ele compreendia que aqueles papéis eram parte da identidade de um povo.
Sua dedicação à preservação da memória regional ganhou dimensão ainda maior quando participou da criação do Museu Histórico Sorocabano. A instituição foi criada pela Prefeitura de Sorocaba, por meio de decreto municipal, tendo como principais idealizadores o historiador e monsenhor Aluísio de Almeida e o pesquisador Adolfo Frioli. Durante quase trinta anos, Frioli dirigiu o museu, organizando, catalogando e preservando um dos mais importantes acervos históricos do interior paulista.
Foi dali que milhares de fotografias, documentos, mapas, manuscritos e objetos históricos passaram a ser protegidos para as futuras gerações.
Mas, mesmo à frente de uma das mais importantes instituições culturais da região, Adolfo jamais deixou de olhar para Votorantim. Pesquisou sua origem. Resgatou suas fotografias. Identificou personagens. Catalogou documentos. Registrou histórias que, sem sua dedicação, provavelmente teriam desaparecido para sempre. Votorantim nunca foi apenas uma cidade vizinha em sua trajetória. Foi uma paixão de pesquisador. Foi um compromisso com a memória. Foi parte importante da missão que escolheu para sua vida.
Por isso, durante décadas, pesquisadores, jornalistas, estudantes, escritores e apaixonados pela história de Votorantim encontraram nele um porto seguro.
Quantas vezes uma reportagem da Gazeta de Votorantim só ganhou vida porque Adolfo abriu uma pasta de fotografias?
Quantas vezes uma dúvida sobre um bairro, uma fábrica, uma igreja, um personagem ou uma família foi esclarecida por uma conversa com ele?
Quantas vezes ele emprestou documentos, compartilhou imagens ou dividiu conhecimento sem pedir absolutamente nada em troca?
É impossível contar.
Porque Adolfo nunca acreditou que conhecimento devesse ficar trancado em estantes.
Seu acervo jamais foi um cofre. Sempre foi uma ponte. Uma ponte entre o passado e o presente. Uma ponte entre gerações. Uma ponte entre Sorocaba e Votorantim. Foi fotógrafo quando a fotografia ainda exigia paciência, técnica e sensibilidade.
Como repórter fotográfico da extinta Folha Popular, aprendeu que uma imagem não registra apenas um fato.
Ela registra uma época inteira.
Talvez por isso tenha desenvolvido um olhar tão especial. Ele nunca fotografou somente edifícios. Fotografou sentimentos. Não registrou apenas ruas. Registrou lembranças.
Mais tarde, como historiador, pesquisador, museólogo e escritor, continuou fazendo exatamente a mesma coisa. Só mudou a ferramenta. A câmera dividiu espaço com livros, documentos e manuscritos. Mas o objetivo permaneceu o mesmo.
Salvar a memória. Ao lado dessa missão sempre esteve Ida.
Mais que esposa. Companheira de vida. Companheira de sonhos. Companheira de uma história construída com simplicidade, amor e serenidade. A casa da família, aos pés da Serra de Araçoiaba, tornou-se muito mais do que uma residência. Ali havia livros. Fotografias. Mapas. Documentos. Recortes. Pesquisas. Mas havia, sobretudo, acolhimento. Quem batia à porta quase nunca saía apenas com uma informação. Saía com uma aula de história. Adolfo nunca escolheu para quem ensinaria.
Nunca perguntou quem era importante. Nunca mediu pessoas por cargos ou títulos.
Recebeu estudantes com o mesmo carinho dedicado aos pesquisadores mais experientes. Atendeu jornalistas iniciantes com a mesma atenção dispensada aos escritores consagrados.
Seu tempo sempre pertenceu a quem desejava aprender. Talvez seja essa a razão de ser tão querido. É difícil encontrar alguém em Votorantim que não tenha uma boa história para contar sobre Adolfo Frioli.
Uns lembram de uma fotografia. Outros de um documento. Muitos lembram de uma conversa. Todos lembram da generosidade. Porque sua maior obra nunca foi um livro.
Nem uma exposição. Nem mesmo um museu. Sua maior obra foi ensinar uma região inteira a respeitar sua própria história.
Sorocaba ganhou um guardião de sua memória.
Votorantim ganhou um de seus maiores intérpretes.
As duas cidades foram privilegiadas por compartilhar o mesmo pesquisador.
Hoje, quando Votorantim procura suas origens, inevitavelmente encontra Adolfo Frioli.
E isso acontece porque ele compreendeu algo que poucos compreendem.
Uma cidade não vive apenas do presente. Ela vive daquilo que consegue lembrar. E Votorantim lembra.
Lembra porque um homem simples, humilde, apaixonado pela fotografia, pela história e pelas pessoas, decidiu dedicar boa parte de sua vida para que nenhuma de nossas lembranças fosse perdida.
Há homens que escrevem livros. Há homens que fotografam momentos. Há homens que pesquisam documentos. Adolfo Frioli fez tudo isso. Mas realizou algo ainda maior.
Ajudou Sorocaba a preservar sua memória. E ajudou Votorantim a nunca esquecer quem ela é.
Por Werinton Kermes

Adolfo Frioli e Werinton Kermes


Luciana Lopez e Adolfo Frioli






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