O marketing morreu? Não. Mas ele mudou completamente.
Divulgação Sempre que digo que trabalho com Marketing, alguém logo associa a profissão à propaganda, às redes sociais ou aos anúncios. Essa confusão é natural, mas existe uma diferença importante entre Marketing e Publicidade.
Enquanto o Marketing é essencialmente estratégico — voltado à análise de mercado, comportamento do consumidor, tendências e oportunidades —, a Publicidade transforma essa estratégia em comunicação, dando forma às campanhas, aos anúncios e às ações que chegam ao consumidor. São áreas diferentes, mas inseparáveis. Caminham lado a lado em busca do mesmo objetivo: gerar resultados para empresas, marcas e negócios.
No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, a lógica da comunicação era outra. Outdoors, comerciais de televisão, anúncios em jornais e revistas dominavam a atenção das pessoas. Estar presente nesses canais era praticamente um atestado de credibilidade e, muitas vezes, a única forma de ser conhecido por novos consumidores.
Quem não anunciava dependia quase exclusivamente da indicação de clientes satisfeitos. Funcionava, mas limitava o crescimento. Afinal, como alcançar quem acabava de chegar à cidade ou ainda nem conhecia a existência da sua empresa?
Hoje, basta abrir o celular por alguns minutos para perceber que tudo mudou.
Nunca fomos tão impactados por mensagens, marcas e ofertas. Ao mesmo tempo, nunca tivemos tanta facilidade para ignorá-las.
Nesse cenário, as mídias tradicionais passaram por um interessante processo de transformação. Em um ambiente onde notícias falsas e informações desencontradas circulam com velocidade impressionante, veículos profissionais recuperaram um papel extremamente valioso: o de fonte de credibilidade. A confiança voltou a ser um dos ativos mais importantes da comunicação.
Mas talvez a maior transformação tenha acontecido no comportamento do consumidor.
Quem viveu as décadas passadas certamente se lembra de percorrer diversas lojas para comparar preços antes de comprar um eletrodoméstico. O orçamento era feito no papel, as anotações eram à caneta e a decisão levava dias.
Hoje, em poucos minutos, comparamos preços de centenas de lojas, analisamos avaliações de outros consumidores, pesquisamos a reputação da empresa, verificamos prazos de entrega, formas de pagamento e, muitas vezes, sabemos mais sobre o produto do que o próprio vendedor.
Essa mudança obrigou empresas do mundo inteiro a se reinventarem. Grandes redes varejistas americanas, como a Best Buy, precisaram transformar completamente sua estratégia. Muitas de suas lojas físicas deixaram de ser apenas pontos de venda para se tornarem espaços de experiência, demonstração e relacionamento, enquanto boa parte das vendas migrou para o ambiente digital.
É justamente aí que percebemos a maior mudança do marketing moderno.
Ele deixou de ser apenas publicidade.
Passou a ser experiência.
A experiência começa na forma como uma empresa atende pelo WhatsApp, responde a um comentário nas redes sociais ou recebe um cliente na loja. Está no cuidado com a embalagem, na facilidade de navegar pelo site, na qualidade das informações oferecidas e, principalmente, na sensação que uma marca desperta antes, durante e depois da venda.
Perceba que, em nenhum momento, falei de investimentos milionários.
As maiores transformações do marketing dos últimos anos não aconteceram porque as empresas passaram a gastar mais dinheiro, mas porque passaram a compreender melhor o comportamento das pessoas.
Atuando tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, percebo uma diferença bastante interessante. No mercado americano, muitas empresas priorizam a construção de relacionamento antes de tentar vender qualquer coisa. Elas entendem que confiança é um patrimônio. Demora anos para ser construída, mas pode ser destruída em poucos minutos. Aqui é onde entra também o conceito do “time is money” – tempo é dinheiro e “save your time” – economize tempo com determinadas soluções. Bons produtos, confiabilidade, bom atendimento e compromisso com a entrega final da forma esperada costumam criar um ciclo renovável de vendas.
No Brasil, ainda vemos muitas organizações concentrando seus esforços apenas na divulgação. Investem em anúncios, mas negligenciam a experiência. Falam muito sobre seus produtos e pouco sobre os problemas que seus clientes realmente desejam resolver.
O resultado costuma ser previsível: conseguem chamar atenção por alguns segundos, mas não permanecem na memória das pessoas.
Marketing não é convencer alguém a comprar.
É fazer com que, quando surgir uma necessidade, sua marca seja naturalmente lembrada.
Isso exige posicionamento, identidade, coerência e, principalmente, comunicação.
Vivemos uma época em que produtos podem ser copiados, preços podem ser reduzidos e tecnologias rapidamente deixam de ser diferenciais. O que permanece é a percepção que as pessoas constroem sobre uma marca.
Talvez essa seja a maior mudança do marketing moderno.
Ele deixou de disputar apenas espaço na mídia para disputar espaço na mente — e, por que não, também no coração das pessoas.
E essa disputa não é vencida pela empresa que fala mais alto.
É vencida por aquela que consegue ser mais relevante.
Até a próxima.
* Rafael Baddini Botti é é estrategista de Marketing e Comunicação, professor universitário e empresário, com mais de 21 anos de experiência nacional e internacional em branding, posicionamento e comunicação de resultados.





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