Crônica da semana - Seu Chico da cantina do Daniel Verano
Aos 98 anos, Francisco Moreira ainda ri de uma previsão do tempo que ouvia no rádio.
Nhô Juca, o locutor que fazia parte do cotidiano das famílias costumava anunciar, com a segurança de quem jamais poderia errar, que, se não chovesse, faria sol.
Francisco achava graça. E ainda acha.
Quase um século depois, sentado em sua poltrona, ele recupera aquela lembrança com a mesma leveza. O sorriso aparece primeiro nos olhos e depois toma conta do rosto.
Talvez a memória seja exatamente isso: uma imensa casa onde o tempo guarda aquilo que decidiu não levar embora.
E a casa da memória de Seu Chico está cheia.
Cheia de pessoas, ruas, fábricas, cinemas, escolas, viagens, amigos, crianças, lutas, amores e acontecimentos de uma Sorocaba e de uma Votorantim que já não existem da mesma maneira, mas que continuam vivas quando ele começa a contar.
Francisco nasceu no centro de Sorocaba, numa época em que aquela região era ocupada principalmente por famílias trabalhadoras, muitas delas de poucos recursos.
Era o caçula de sete irmãos: três homens e quatro mulheres.
A mãe, lavadeira, conhecia bem o significado do trabalho duro. Mais tarde, com a mudança da família, também trabalharia como tecelã.
Dinheiro podia faltar. Histórias, não.
A rua era extensão da casa. Os irmãos eram companheiros. O rádio era uma janela para o mundo. E a infância ensinava cedo aquilo que nenhuma escola consegue ensinar sozinha: dividir, improvisar, cair, levantar e encontrar felicidade mesmo quando quase nada podia ser comprado.
Seu Chico estudou na Escola Antonio Padilha, próxima de casa. Foi ali que aprendeu a ler.
Talvez ele não imaginasse que aquele aprendizado criaria um hábito para toda a vida. Até hoje é leitor apaixonado do jornal Cruzeiro do Sul.
Há, porém, uma seção que procura com especial atenção: o obituário.
Quando encontra o nome de alguém com idade avançada, observa a fotografia e muitas vezes comenta:
— Eu conheci...
A frase parece pequena. Mas, pronunciada por um homem de 98 anos, pode conter uma cidade inteira.
Seu Chico conheceu uma Sorocaba que hoje está nos arquivos, nos livros, nas fotografias amareladas e, sobretudo, na memória dos mais velhos.
Quando tinha nove anos, quis acompanhar a inauguração do Mercado Municipal. Crianças desacompanhadas não podiam entrar. O menino não desistiu. Aproximou-se de um adulto, segurou-lhe a mão e atravessou a entrada como se estivesse acompanhado pelo próprio pai.
Entrou. Queria apenas ver.
É uma pequena aventura de infância, mas diz muito sobre o menino curioso que queria estar onde as coisas aconteciam.
Ele também frequentava a Capela João de Camargo. Gostava de conversar com Nhô João e cultivava grande respeito por aquele homem que se tornaria uma das figuras mais marcantes da religiosidade popular de Sorocaba.
Na adolescência, testemunhou uma cena que permaneceu guardada por décadas. Viu Dom Aguirre fechar as portas da Catedral no episódio envolvendo o corpo de João de Camargo, conhecido como o Preto Místico. Seu Chico estava lá.
Esse detalhe ajuda a compreender por que ouvir os mais velhos é tão importante.
Um documento informa. Uma testemunha nos aproxima. O livro registra a data. A memória nos conta como era estar naquele lugar.
Depois, muitas outras vidas caberiam dentro da vida de Francisco.
Foi vendedor de pipoca diante do Cine São José, quando ir ao cinema era muito mais do que assistir a um filme. Era um acontecimento social. As pessoas se encontravam, conversavam, observavam quem chegava, comentavam a fita e faziam das calçadas parte do espetáculo.
Entre elas estava o jovem Chico, vendendo pipoca. Mais tarde, atravessaria o oceano. Passou cerca de dois meses em um navio e conheceu diferentes países da Europa.
Para alguém saído de uma família simples do interior paulista, atravessar o Atlântico naquele tempo era quase atravessar uma fronteira entre dois mundos.
Mas foi em Votorantim que uma parte decisiva de sua história seria escrita. Quando a família se mudou para cá, Votorantim ainda estava ligada administrativamente a Sorocaba. Antes de se tornar município, era uma comunidade fortemente marcada pelas fábricas, pelas vilas operárias e por trabalhadores que ajudavam a construir uma identidade própria para o lugar.
Seu Chico viveu esse tempo. E não apenas de longe.
Conheceu e conviveu com personagens importantes da história regional, entre eles Mathias Gianolla, Pedro Augusto Rangel e Luiz do Patrocino Fernandes.
Lembra-se também de Luisão, personagem conhecido por suas posições políticas e a quem muitos se referiam, naquele período, como “o comunista” da então Vila de Votorantim.
Esses nomes, para as novas gerações, podem pertencer aos registros históricos. Para Seu Chico, pertencem também à memória de gente que ele encontrou, ouviu e com quem conviveu.
Essa é uma das grandes riquezas de conversar com ele. Seu Chico não conta apenas a própria história. Quando abre as gavetas da memória, abre junto uma janela para a história de Votorantim.
Trabalhou na Votocel. No ambiente operário, envolveu-se com a organização dos trabalhadores e ajudou a fundar o primeiro Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Papel e Papelão da cidade.
Depois veio outro momento fundamental: a emancipação de Votorantim.
Quando a população discutia se aquela comunidade deveria continuar pertencendo a Sorocaba ou conquistar autonomia, Francisco tomou posição. Defendeu o “SIM”.
Acreditava que Votorantim deveria assumir o direito e também a responsabilidade de construir seu próprio destino. Viveu igualmente tempos de tensão.
Durante o regime militar, foi procurado por pessoas interessadas em obter informações. Preferiu não colaborar.
Às vezes imaginamos coragem como um grande discurso pronunciado diante de uma multidão. Nem sempre. Há momentos em que coragem é simplesmente saber dizer não. Ou saber permanecer em silêncio.
Até aqui, já existiria material suficiente para contar a história de um homem. O menino pobre. O vendedor de pipoca. O amigo de personagens históricos. O operário. O sindicalista. O viajante. O defensor da emancipação.
Mas o capítulo que faria Francisco permanecer de maneira ainda mais profunda na memória de centenas de pessoas começou justamente quando, para muitos, sua vida profissional já poderia estar chegando ao fim.
Depois de aposentado, Seu Chico venceu a licitação para assumir a primeira cantina da Escola Estadual Daniel Verano. Era uma cantina. Pelo menos oficialmente.
Durante 22 anos, porém, aquele pequeno balcão tornou-se muito mais do que um lugar onde estudantes compravam doces e salgados. Quem passou pelo Daniel Verano naquele período provavelmente se lembrará dos sabores.
Maria-mole, maria-bonita, canudinho de doce de leite, doce de banana, pé-de-moleque, paçocão, pirulitos, gibis, guarda-chuvinhas e moedas de chocolate, bolinhas de futebol, suspiros coloridos e tantas outras guloseimas que faziam parte do universo infantil daquele tempo.
A Tubaína era vendida a granel e servida no copo. E havia o risoles. Esse Seu Chico fazia pessoalmente.
Feche os olhos por alguns segundos e talvez seja possível reconstruir a cena.
O sinal anunciando o recreio. Os corredores imediatamente cheios. As conversas. As risadas. As moedas apertadas nas mãos. A fila diante do balcão. E Seu Chico no meio de tudo aquilo. Mas a parte mais importante daquela cantina nunca esteve nas prateleiras. Estava na maneira como ele enxergava as crianças. Algumas chegavam com dinheiro. Outras possuíam uma caderneta autorizada pelos pais. E havia as que não tinham dinheiro nem caderneta. Seu Chico percebia.
Essa palavra talvez explique boa parte de sua história no Daniel Verano:
perceber.
Percebia o aluno com fome. Percebia quem estava triste. Percebia quem precisava conversar. Percebia a criança que, durante o recreio, apenas observava os colegas comerem. Então encontrava uma maneira. Anotava. Esperava. Resolvia. Sem transformar a dificuldade de uma criança em espetáculo.
Muito antes de inclusão e acolhimento se tornarem palavras frequentes nos projetos educacionais, um cantineiro já praticava ambas de uma maneira muito simples.
Ele preservava a dignidade.
Seu Chico não era professor. Mas educava.
Não era psicólogo. Mas escutava.
Não era pai. Mas soube acolher como poucos.
Uma das histórias mais curiosas daquele período envolve a famosa “Loira do Banheiro”. A lenda atravessou gerações e produziu medo verdadeiro entre algumas crianças. Quando os menores ficavam assustados, Seu Chico os acompanhava.
Pode parecer um gesto pequeno. Não é.
Toda infância tem suas lendas, seus mistérios e seus fantasmas. Eles fazem parte do imaginário e até da memória afetiva de uma geração. Mas existe uma diferença entre alimentar a fantasia e transformar fantasia em sofrimento. Seu Chico parecia entender isso intuitivamente.
Ele não precisava discutir se o fantasma existia. Simplesmente caminhava ao lado da criança.
Talvez essa seja uma das definições mais bonitas de acolhimento. Nem sempre precisamos eliminar o medo de alguém. Às vezes basta não deixá-lo enfrentá-lo sozinho.
A cantina também se transformava em confessionário informal. Era ali que uma menina podia contar sobre a tristeza do primeiro amor.
Era Seu Chico quem conversava com um garoto surpreendido fumando escondido atrás do muro, numa época em que as ruas laterais da escola ainda eram de terra.
Separava pequenas brigas. Dava conselhos. Chamava a atenção quando necessário. Conhecia alunos, professores e funcionários. Conhecia pessoas.
Seu Chico nunca teve filhos. Mas talvez poucos homens sem filhos biológicos tenham sido chamados, mesmo que silenciosamente, a exercer tantas vezes uma espécie de paternidade afetiva. Porque pai também pode ser aquele que escuta. Que protege. Que corrige. Que oferece. Que permanece.
A vida reservou a Francisco também uma grande história de companheirismo. Aos 50 anos, casou-se com Dona Célia Aleixo, que tinha a mesma idade. A lua de mel foi em Aparecida do Norte, destino que combinava com a fé católica que sempre acompanhou Seu Chico. Foram 30 anos juntos. Depois veio a viuvez.
E, com ela, outra forma de aprender sobre a ausência.
Hoje, Seu Chico permanece amparado pela família. O sobrinho Francisco herdou mais do que o nome: carrega uma profunda admiração pelo tio.
No cotidiano, Simone e Tereza estão presentes nos cuidados diários. Quando falam sobre ele, surge uma definição simples:
— Um verdadeiro cavalheiro.
Talvez porque a delicadeza tenha sido uma de suas maneiras de atravessar o mundo.
Entre as amizades construídas em Votorantim, lembra com carinho de Dona Norma, amiga dos tempos da Votocel.
São muitos nomes. Muitos rostos. Muitas histórias.
Mas existe um lugar para o qual sua memória continua voltando insistentemente.
O Daniel Verano.
Quando o contrato da cantina não foi renovado e chegou a hora de deixar a escola, Seu Chico viveu um dos momentos mais dolorosos de sua trajetória.
Não estava perdendo simplesmente um trabalho.
Estava deixando para trás 22 anos de convivência.
O sinal do recreio. O balcão. Os professores. Os funcionários. As crianças correndo pelos corredores. Os segredos. As brincadeiras. As preocupações. E, principalmente, o som de alguém chamando:
— Seu Chico!
Há empregos que pagam salários. Há outros que nos dão pertencimento. A cantina havia lhe dado o segundo.
Décadas se passaram. Então faço uma pergunta simples, embora talvez seja uma das perguntas mais difíceis que se possa fazer a alguém de 98 anos:
Valeu a pena viver?
Seu Chico fica em silêncio. Olha para longe.
Talvez algumas respostas precisem percorrer quase um século antes de chegar à boca.
E então responde:
— Tudo valeu a pena. Viver vale a pena.
Pergunto do que sente mais saudade.
Agora não há demora.





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