Crônica da Semana - Roberto Galli: O homem que não deixou a bola ir embora
Rob Galli Antes que o futebol lhe ensinasse sobre disciplina, amizade e coletividade, Roberto Galli precisou aprender a salvar a bola.
Na infância, onde hoje estão a Praça Ermírio de Moraes e a Paróquia São José, havia um campinho de terra. Era ali que os meninos da Vila Dominguinhos disputavam suas pelejas, enquanto o Rio Sorocaba acompanhava silenciosamente cada partida.
O problema surgia quando um chute mais forte mandava a bola para dentro do rio. Naquele tempo, perder uma bola não era um acontecimento pequeno. Uma bola pertencia a muitas crianças. Era o brinquedo, o encontro e a razão para continuar na rua até o anoitecer.
Roberto e o amigo Edson Maganhato encontraram uma solução. Com uma vara de bambu de aproximadamente cinco metros, uma argola de arame e um saco de estopa, construíram uma engenhoca capaz de alcançar a bola antes que a correnteza a carregasse.
Talvez eles não soubessem, mas aquela invenção infantil já dizia muito sobre o homem que Roberto se tornaria.
Diante de um problema, não ficava apenas olhando.
Procurava uma maneira de ajudar.
Roberto Galli nasceu no coração da antiga Vila Votorantim, na Vila Dominguinho, em frente ao Sindicato dos Têxteis. Era uma Votorantim operária, formada ao redor das fábricas, habitada por famílias que repartiam dificuldades, esperanças e pequenas alegrias.
Filho único de Paulo Galli e Hermínia Martins Galli, cresceu cercado pela avó Piedade e pelos tios José Carlos e João. Como a mãe trabalhava na fábrica, foram os parentes mais velhos que preencheram seus dias com presença, cuidado e ensinamentos.
Por suas veias correm histórias de espanhóis e italianos que atravessaram distâncias para construir uma vida no Brasil. Gente que trabalhou na agricultura, enfrentou dificuldades e encontrou na antiga Vila Votorantim um lugar onde pudesse fincar raízes.
Aos dez anos, Roberto começou a trabalhar em uma tecelagem ao lado da avó. Era um tempo em que a infância terminava cedo para muitas crianças. Ainda assim, entre o trabalho e as obrigações, havia espaço para o campinho, para os amigos, para o cinema e para as noites em que a rua parecia uma extensão de todas as casas.
Ele se recorda de uma comunidade na qual as crianças brincavam até oito ou nove horas da noite, sob a proteção coletiva das famílias.
- A gente vivia em harmonia com todo mundo. Era tudo em família.
Votorantim oferecia poucas opções de diversão. De vez em quando chegava um circo, como o Guaraciaba. Aos domingos, as pessoas iam à praça central. Os rapazes ficavam de um lado, as moças de outro, e os encontros começavam na troca discreta de olhares.
Havia também o cinema.
Como o dinheiro era curto, Roberto ajudava a varrer o local para poder assistir aos filmes sem pagar. Limpava a sala pela manhã e, mais tarde, entrava como uma espécie de funcionário improvisado.
Também nisso existe uma lição: quando a porta da fantasia parecia fechada, ele encontrava uma vassoura e ajudava a abri-la.
Mas foi o futebol que lhe ofereceu os ensinamentos que atravessariam sua vida.
Roberto começou a jogar aos 13 anos. Passou pelo juvenil do Votoran, pelo Corinthians de Votorantim e, ainda muito jovem, chegou ao Estrada de Ferro Sorocabana. Em 1967, aos 16 anos, fez um teste e foi aprovado. Depois de apenas uma semana, surgiu a oportunidade de entrar como titular.
Mais tarde, foi aprovado tanto no São Paulo quanto no Guarani. A família considerou Campinas um caminho mais seguro. No Guarani, além da oportunidade de jogar, ele recebeu moradia, alimentação, roupa lavada e condições para estudar.
O futebol não lhe deu apenas uma camisa.
Deu-lhe educação, responsabilidade, disciplina e novos horizontes.
Depois vieram Vasco de Americana, atual Rio Branco, Juventus e Bragantino. Vieram as viagens, as vitórias, as derrotas, os campos difíceis e os adversários respeitados. Vieram também meses sem salário.
No Vasco de Americana e no Bragantino, Roberto chegou a passar quatro ou cinco meses sem receber. Naquele tempo, muitos jogadores entravam em campo movidos mais pelo amor ao esporte do que pelas recompensas financeiras.
Não havia contratos milionários, exposição permanente ou a segurança que acompanha parte dos atletas de hoje. Havia chuteiras gastas, incertezas e a necessidade de permanecer em campo mesmo sentindo dor. As substituições eram limitadas, e os mesmos onze frequentemente precisavam jogar até o último minuto.
Era preciso resistir.
Em 1976, Roberto viveu outra conquista marcante. Jogando futebol de salão pela equipe da Votocel, sagrou-se campeão do Cruzeirão, principal torneio da modalidade na região e uma competição que permanece tradicional até hoje.
A conquista ocupa um lugar especial em sua memória. Mais do que levantar uma taça, significou dividir esforço, disciplina e alegria com os companheiros. Afinal, nenhuma equipe se torna campeã apenas pelo talento de um jogador. Cada vitória começa quando todos aprendem a jogar uns pelos outros.
Porque o futebol nunca foi apenas resistência física.
É um esporte coletivo. Ninguém vence sozinho. O talento de um jogador depende do companheiro que marca, daquele que passa a bola e de quem ocupa o espaço para que a jogada aconteça. Até o maior craque precisa confiar em alguém.
O técnico ensina que nem sempre fazemos aquilo que desejamos, mas aquilo de que a equipe necessita. A disciplina mostra que chegar antes, treinar, ouvir e repetir também faz parte da vitória. A derrota ensina humildade. O banco de reservas ensina paciência. E a vitória, quando bem compreendida, ensina gratidão.
Talvez por isso Roberto tenha levado os princípios do esporte para todas as outras dimensões de sua vida.
Como homem, aprendeu a perseverar.
Como marido, construiu ao lado de Maria Inês uma união de meio século, depois de sete anos de namoro. Curiosamente, foi o próprio futebol que colocou os dois no mesmo caminho. Roberto visitava a casa do jogador Lindóia, e Maria Inês morava em frente. Uma visita tornou-se encontro; o encontro virou namoro; e o namoro transformou-se em uma vida compartilhada.
Como pai e avô, compreendeu que uma família também é uma equipe. Nela, ninguém deveria caminhar sozinho. Há momentos de conduzir, outros de aconselhar e muitos em que é preciso apenas permanecer ao lado.
Como cidadão, procurou devolver a Votorantim parte daquilo que a cidade lhe ofereceu.
Na vida pública, ajudou a levar esporte, lazer e cultura aos bairros. Participou da realização das Olimpíadas Especiais e de projetos que permitiram a crianças e jovens descobrir, por meio da prática esportiva, possibilidades que talvez não encontrassem em outros lugares.
Uma de suas maiores alegrias foi contribuir para a realização da Copinha de Votorantim. Por seus campos passaram meninos de várias partes do Brasil, alguns dos quais se tornariam grandes nomes do futebol, como Neymar.
Antes dos estádios lotados, das câmeras e dos contratos, eram apenas garotos correndo atrás de uma bola.
Roberto sabia reconhecê-los porque um dia também fora um deles.
Participou ainda das articulações que trouxeram o Votoraty para a cidade, devolvendo a Votorantim uma equipe para chamar de sua. Guarda gratidão pelo apoio do então prefeito Jair Cassola, porque sabe que mesmo as grandes realizações nunca são obra de uma pessoa apenas.
Novamente, o espírito coletivo.
Novamente, um dependendo do outro.
Roberto também assumiu a gestão da Santa Casa de Votorantim. Foram tempos difíceis e, em alguns momentos, amargos. Ainda assim, dedicou-se à função porque entendia que servir à cidade não significa estar presente apenas nas comemorações. Cidadania também é permanecer quando os problemas chegam, quando as cobranças aumentam e quando os aplausos desaparecem.
Ao longo da vida, Roberto foi jogador, dirigente, secretário, gestor, marido, pai, avô e amigo. Entretanto, talvez nenhuma dessas palavras, isoladamente, consiga defini-lo.
A melhor definição pode estar no princípio que escolheu carregar:
- É preciso acreditar em um ser superior e também no ser humano. Se a gente não acreditar e não tiver confiança no ser humano, não faz nada.
Acreditar no ser humano não significa desconhecer suas falhas. Significa enxergar, apesar delas, a possibilidade de alguém melhorar, aprender e recomeçar.
É ajudar quando se pode.
É ouvir quando alguém pede atenção.
É compreender que ninguém atravessa sozinho uma partida, uma família, uma cidade ou a própria existência.
Os antigos companheiros de futebol de Roberto ainda se encontram todos os anos em Campinas. São homens que envelheceram, constituíram suas famílias e seguiram caminhos diferentes, mas continuam unidos pelo tempo em que dividiram campos, dificuldades e sonhos.
- A gente não jogava apenas pelo time, mas pela amizade que tinha.
Talvez seja esse o verdadeiro placar de uma vida.
Não os gols marcados, os campeonatos disputados ou os cargos ocupados, mas as pessoas que continuam se reunindo porque ainda existe afeto entre elas.
Roberto deseja ser lembrado como alguém que cumpriu seus deveres, respeitou as pessoas e procurou ajudar sempre que pôde. Parece um desejo simples, mas não é. Em um mundo no qual tantos querem ser lembrados pelo que possuíram, escolher permanecer na memória pelo bem que se fez é uma forma silenciosa de grandeza.
A correnteza continua passando.
Levou consigo a antiga Vila Dominguinhos, os campinhos de terra, algumas fábricas, o cinema que os meninos varriam e muitas vozes que já não podem ser ouvidas. O tempo, assim como o rio, nunca deixa de correr.
Mas algumas coisas podem ser resgatadas.
Uma lembrança. Uma amizade. Uma esperança. Uma oportunidade oferecida a uma criança. Uma cidade que volta a ter um time. Uma pessoa que, no momento difícil, encontra alguém disposto a ajudá-la.
Roberto Galli passou a vida fazendo, de diferentes maneiras, aquilo que aprendeu ainda menino: estender as mãos para que as coisas importantes não fossem levadas pela correnteza.
Naquela época, usava uma vara de bambu, uma argola de arame e um saco de estopa.
Depois, passou a usar a disciplina, o esporte, a amizade, a família, o trabalho e a confiança no ser humano.
A bola foi salva muitas vezes.
E, enquanto houver alguém disposto a entrar em campo pelo outro, ainda haverá esperança de que o melhor de nós também não seja levado pelo rio.
Por Werinton Kermes












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